domingo, 26 de outubro de 2025

Geração a terminar


Somos da geração que nunca mais vai voltar. Uma geração marcada por pequenos rituais que hoje soam distantes, quase lendários, para quem não os viveu. Fomos meninos e meninas que iam à escola e regressavam a pé, mochila às costas e o mundo inteiro pela frente. A pressa era sempre para terminar os deveres de casa, não por obrigação, mas para ganhar tempo para aquilo que realmente importava: brincar na rua.
Éramos os donos das calçadas, das praças, dos recantos secretos entre prédios e árvores. O tempo livre era sinónimo de encontro, de liberdade para inventar brincadeiras e histórias que só faziam sentido dentro do nosso universo. O esconde-esconde tornava-se mais emocionante com a chegada do anoitecer, quando as sombras dançavam ao nosso redor e a imaginação corria solta.
Fomos a geração dos bolos de lama, feitos com mãos sujas de terra e corações cheios de criatividade. Aventurávamo-nos à beira dos lagos, colecionando memórias e momentos de pura felicidade. Os brinquedos de papel, recortados e coloridos com cuidado, nasciam das nossas próprias mãos.
Vivemos o início da era tecnológica, que experimentávamos com encanto. O walkman era um tesouro, a cassete VHS garantia de sessões de cinema em casa e a disquete era a promessa de guardar os nossos primeiros ficheiros. Tirávamos fotos com câmaras a rolo, esperávamos ansiosamente pela revelação e colávamos os melhores momentos em álbuns de recortes, eternizando amizades e aventuras.
Vimos o nosso pai de chave de fendas na mão para consertar a televisão, ajustar a antena e ensinar-nos que quase tudo se pode arranjar com um pouco de paciência. Tínhamos pais e avós e com eles aprendíamos o valor das pequenas conquistas do dia a dia.
À noite ríamos baixinho debaixo dos lençóis, esperando não sermos apanhados acordados. Éramos cúmplices de uma infância em que as regras se dobravam e os sonhos se multiplicavam, na certeza de que, no dia seguinte, a rua nos esperava de novo.
Somos uma geração que está a terminar, uma geração de lembranças partilhadas que viveu a transição entre o analógico e o digital, entre o toque e o clique. Uma geração irrepetível, cujas histórias continuam a ser contadas em sorrisos nostálgicos, porque, infelizmente, nunca mais voltará, mas seguirá viva na memória de todos aqueles que a viveram.
Desconheço os autores
do texto e da imagem.