Foi
no verão de 1971 que começou uma longa caminhada de vida partilhada, marcada
por desafios e conquistas. Em Elvas, durante o serviço militar, dois jovens
ficaram noivos e logo se viram separados pelas vicissitudes da época: a
mobilização para a guerra em outubro e o embarque para Angola em março de 1972,
até ao regresso em junho de 1974. Esse período de ausência foi duro, mas não
quebrou os laços que, pelo contrário, se fortaleceram na distância.
Após
o regresso, iniciou-se uma nova etapa, igualmente complexa: encontrar um
emprego estável para construir uma família. A noiva, órfã de mãe desde 1971,
vivia "de favor" em casa de uma irmã, enquanto o noivo teve de
migrar, longe de casa, em busca de sustento. Assim, com vidas separadas por
centenas de quilómetros e condições precárias, decidiram casar em 1976. A
decisão foi tomada sem hesitações: porque sim, porque o amor e a vontade de
partilhar a vida eram mais fortes do que os obstáculos.
Inconformada
com a distância e os perigos do trabalho do marido, a esposa perseverou até
convencê-lo a mudar de rumo, contando com o apoio da sogra. Com frases que
misturavam preocupação e humor "Não morreste na guerra, vais morrer algum
dia naquele malçoado buraco!" conseguiram fazer com que ele deixasse as
minas e ingressasse numa profissão inesperada, repleta de desafios e
mentalidades antiquadas. Mas nem as dificuldades, nem as armadilhas ou
humilhações o fizeram desistir. Pelo contrário, enfrentou os obstáculos com
determinação, obteve as melhores notas e continuou a evoluir: fez os cursos de
cabo e depois o de sargento.
O
mérito foi conquistado a duras penas. Quando finalmente regressou a casa com o
diploma de sargento da Guarda Nacional Republicana, as emoções transbordaram:
lágrimas, abraços e o conforto silencioso e terno da companheira. Não recebeu
ajudas nem favores, apenas o apoio incondicional da esposa, que cuidou dos
filhos sozinha durante três longos anos, enquanto ele se dedicava à formação,
longe de casa e da família. Voltava às sextas-feiras de madrugada e partia aos
domingos à tarde, numa rotina exigente que provou a força do seu vínculo.
No
fim, reconhece que essa conquista também pertence à mulher, que o incentivou a
mudar de vida e enfrentou todas as "alhadas" consigo. Caminham
juntos, cúmplices e amigos, há já cinquenta anos. Não foi um caminho só de
rosas, mas também não foi apenas de espinhos. Como em qualquer vida, houve dias
felizes, dias assim-assim e dias menos bons. Mas nunca pararam nem desistiram.
Continuaram sempre a caminhar, ultrapassando cada obstáculo, lado a lado.
A
reflexão culmina numa imagem simbólica: o casal a caminhar juntos,
descontraídos, sobre uma ponte em Chaves, captados casualmente por alguém sem
que se apercebessem. A harmonia era tal que caminhavam com o passo certo, lado
a lado. Seria só acaso? Talvez. Ou talvez não haja acasos, mas sim a força de
uma caminhada feita em conjunto, com amor, persistência e companheirismo.
A
história é, antes de tudo, um testemunho inspirador sobre o valor de caminhar
juntos na vida, enfrentando as adversidades com coragem e união. Para eles,
como para todos nós, o segredo está em não parar, não desistir e acreditar que
cada passo, mesmo quando difícil, faz parte do caminho que vale a pena ser
trilhado.
José
Coelho
