sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Liderar, humanizar, evoluir

Ao longo da minha carreira profissional e particularmente desde o momento em que ascendi à classe de sargento sempre pautei a minha conduta pelo respeito institucional, independentemente da posição hierárquica de cada camarada. Para mim o verdadeiro valor de um líder reside na capacidade de, sem hesitar, assumir as suas responsabilidades, mas também de reivindicar com integridade e coragem os direitos de todos e cada um, perante qualquer interlocutor. Superior, igual, ou subordinado.
Jamais me acomodei no gabinete de comandante de posto. Permanecia lá apenas o tempo necessário para tratar dos assuntos da minha exclusiva responsabilidade mas assim que concluía as tarefas administrativas, fazia questão de me juntar imediatamente à equipa, fosse nos jipes ou a pé, patrulhando campos, estradas, aldeias e sítios dispersos pela área do posto.
Nunca me senti superior e distante do grupo por usar divisas douradas nos ombros. Senti-me sempre apenas mais um, naquela excelente equipa de trinta e tal profissionais de infantaria e cavalaria, com a única diferença de me caber apenas a mim – obviamente – assumir a responsabilidade de planear e organizar estratégias que garantissem o controlo eficaz da área sob nossa jurisdição.
Logo que assumi a função de comandante do posto optei imediatamente por implementar a nova metodologia de trabalho radicalmente diferente da que me fora imposta pelos meus antecessores e romper imediatamente com as fórmulas arcaicas e desumanas de escalonamento do serviço. Essa decisão gerou controvérsia especialmente entre alguns camaradas comandantes que resistiam à perda do seu privilégio no arcaico quero, posso e mando.
A minha experiência como soldado permitiu-me compreender o impacto negativo das jornadas excessivas impostas arbitrariamente por esses antigos comandantes que favoreciam uns em detrimento de outros. Sofri na pele a injustiça de trabalhar até quinze horas consecutivas quando, sem qualquer justificação legítima, tinha de comparecer todos os dias no posto às 9 da manhã, apesar de só ir para a patrulha das 16 às 24. Prometi a mim mesmo que nunca repetiria tais comportamentos.
Foi fundamental contar com o apoio do meu comandante direto já formado na mesma doutrina e que, por isso mesmo, partilhava das minhas convicções sobre a necessidade de humanizar e agilizar os horários, bem como a distribuição do serviço. Com a sua confiança e evidente aprovação, pude avançar com a remodelação completa da administração do posto e sobretudo na organização dos patrulhamentos.
A mudança mais significativa foi acabar com a obrigatoriedade de concentração de todo o efetivo no posto entre as 9 e as 17 horas. Cada militar passou a comparecer apenas à hora de se equipar para iniciar o serviço escalado, erradicando práticas de caciquismo e promovendo mais justiça e eficiência.
Essa experiência consolidou em mim a certeza de que liderar é sempre, acima de tudo, servir e inspirar pelo exemplo, promovendo um ambiente de trabalho mais justo, humano e equitativo. A verdadeira força de qualquer equipa está na união e respeito mútuos, pois toda mudança só tem êxito se houver coragem de romper com o que não serve o coletivo.
Embora existissem inúmeras NEP – Normas de Execução Permanente – e um Regulamento Geral do Serviço da Guarda que determinava e agilizava procedimentos, a verdade é que em cada unidade ou subunidade as coisas se processavam de forma diversa de acordo com a interpretação que lhes era dada por cada comandante. E para tornar as coisas ainda mais confusas, também os tribunais nos complicavam muito a vida.
A título de exemplo, a Secção de Nisa trabalhava com quatro comarcas diferentes: A de Castelo de Vide, a de Nisa, a de Ponte de Sor e a de Mação. Era um pandemónio autêntico. Para a mesma situação, crime ou outra démarche qualquer, os magistrados de Castelo de Vide exigiam um procedimento, os de Nisa outro, os de Ponte de Sor outro, e os de Mação um outro ainda!
E a Guarda, que remédio, tinha de agir como lhe era por eles superiormente determinado. Por sua vez, os comandos das secções, procediam em muitas situações de forma idêntica à dos tribunais. Na resolução de um mesmo problema, em Portalegre resolvia-se assim, em Ponte de Sor resolvia-se assado, em Nisa era frito e em Elvas cozido.
Os nossos instrutores de Direito Penal nos cursos de formação incentivaram-nos a não continuarmos tal filosofia por ser absolutamente errada. A Guarda tinha de evoluir, adaptar-se às mudanças e cumprir as novas normas sob pena de algum dia alguém vir a ter problemas sérios e depois não poder invocar as determinações superiores na medida em que uma ordem mal dada nunca deve ser executada.
Tudo isso me dava uma enorme determinação e segurança. Implementar as mudanças de que muito me orgulho até hoje, constituiu o passo decisivo que tornou menos penoso e mais humano o serviço diário dos militares do posto que comandava e aos poucos tiveram de ser assumidas por todos os outros da então Secção – atualmente Destacamento.
É certo que não fui eu quem inventou as novas regras. Mas fui – disso não tenho qualquer dúvida – quem não se intimidou com a sua nada fácil, mas muito mais justa humana e eficaz, implementação.
(Foto no PTNisa em1986)