sábado, 25 de outubro de 2025

O insuportável ribombar deste silêncio

Quando nasci, todas as casas das ruas “do lado de cá da linha” na Beirã, já lá estavam. Tinham uma aparência muito mais humilde com as paredes apenas caiadas de branco, uma ou outra com os alisares pintados a cinzento, portas e janelas feitas à mão por carpinteiros locais. Nada das tintas industriais de hoje, nem das janelas e portas de alumínio que trouxeram o brilho frio do progresso.
Quase encostado à minha casa, o lavadouro público era a céu aberto, rodeado por enormes lajes e canchos onde as lavadeiras estendiam a roupa a corar ao sol. Entretanto o progresso colocou um telhado no tanque para proteger as lavadeiras em dias invernosos e ergueu uns modernos estendais de betão armado onde antes estavam os canchos e as lajes.
Mas a mudança mais profunda não foi essa. Antigamente as lavadeiras disputavam espaço no lavadouro, cada uma com o seu alguidar carregado à cabeça. Hoje contam-se pelos dedos as que ainda lá vão, não por culpa das máquinas de lavar mas porque simplesmente não há quem tenha roupa para lavar. As casas, umas a seguir às outras, não têm já lá ninguém.
O bulício desapareceu, deixando um vazio profundo.
O que resta de vida concentra-se praticamente “na parte de baixo da linha”, no novo bairro logo à entrada da aldeia e na unidade de cuidados continuados, um hospital que nasceu das antigas casas dos funcionários da alfândega. Quem atravessa a linha férrea para o lado de cá, onde eu (ainda) moro, encontra quase ninguém. Meia dúzia de casas habitadas por rua; algumas, nem isso.
O que reina é o silêncio e a ausência. Portas e janelas fechadas, mudas.
Ao contrário do que seria de esperar, não há por enquanto sinais de abandono ou desleixo, exceto uma na Rua Vivas onde o telhado já desabou sem que ninguém se preocupe com isso. A maioria são casas de férias, cuidadas, mas vazias quase todo o ano. Nunca imaginei testemunhar este fim. Sonhei sempre envelhecer aqui, ouvindo o bulício das crianças, os cumprimentos dos vizinhos, os apitos dos comboios. Mas, pouco a pouco, vi entes queridos, vizinhos e amigos partirem e as suas casas sem novos habitantes permanentes.
Aceitei essas perdas como parte natural da vida. O que não consigo aceitar é o desvanecer desta aldeia nem o silêncio que dela tomou conta.
Quando nasci a aldeia era pequena e modesta, mas vibrante. Cresceu comigo: evoluiu, modernizou-se. Era um pequeno mundo onde quase nada faltava e muita gente vivia em paz. Uma comunidade heterogénea de funcionários públicos, ferroviários, trabalhadores do campo, agentes da autoridade. Havia artesãos, comércio, coletividades.
Os espanhóis vinham no comboio desde Valência de Alcântara fazer compras e nós íamos da Beirã para lá buscar sapatilhas, caramelos e outras espanholices fomentando assim um intercâmbio natural e benfazejo. Muitas famílias, como a minha, têm raízes dos dois lados da fronteira, com pais, sogros, irmãos, sobrinhos e primos de ambos os países. Quase todos por aqui entendemos o “extremeño” castelhano e do lado de lá, o português. Era um mundo muito nosso e pacífico.
Antigamente, até mesmo entre os contrabandistas e guardas fiscais, porque um era a razão da existência do outro.
No sossego dos meus dias sento-me vezes sem conta no topo da aldeia a contemplar a paisagem que me é tão querida. Fico horas a pensar, a recordar. A nostalgia traz de volta tudo o que vivi neste chão sagrado agora desertificado pelo “progresso” que a integração europeia trouxe. As casas – AL’s – para turistas trouxeram uma lufada de vida, mas temo que um dia também isso passe de moda.
O tempo avança implacável levando consigo as pessoas, os hábitos, os sons e até as memórias coletivas. O que fica são as paredes arranjadas e os telhados a brilhar, mas, sobretudo, o silêncio, um silêncio novo, que não é de descanso, mas de ausência.
A ausência de tudo o que fez desta aldeia um lugar único e feliz.
Por cá vou ficando e resistindo enquanto posso, agarrado às memórias, ao pouco que resta de vida e esperando que o ciclo turístico da moda não apague por completo a alma deste lugar. Um dia tudo será apenas lembrança. Mas enquanto cá estiver, persistirá o meu amor por esta terra. E também este ensurdecedor silêncio, que vai sendo, cada vez mais, o novo habitante da aldeia.