Foto: 6º CFS - Junho 1985
A decisão de partilhar este testemunho nasce da vontade de desmistificar o caminho percorrido na Guarda Nacional Republicana e dar a conhecer, ao público em geral, as vivências de quem atravessou os exigentes Cursos de Promoção no Centro de Instrução da GNR, na Ajuda, Lisboa na década de 80 do séc. XX. Este relato é, antes de mais, uma homenagem ao esforço, ao mérito e à resiliência exigidos a todos quantos optavam por progredir na carreira militar e também uma reflexão sobre as mudanças que o sistema tem vindo a sofrer ao longo dos anos.
Os Cursos de Promoção da GNR representavam um marco fundamental na vida de qualquer militar que ambicionasse subir na hierarquia. Realizados no histórico Centro de Instrução da Ajuda, em Lisboa, estes cursos eram tanto um rito de passagem como uma prova de fogo. A estrutura era rigorosa e a duração, variável conforme a categoria e função a que se concorria, podia ir de algumas semanas a meses e anos escolares intensivos. O ambiente era marcado pelo rigor disciplinar, pela camaradagem entre colegas e, sobretudo, por uma pressão constante para dar o melhor de si.
O currículo dos Cursos de Promoção era vasto e equilibrado, procurando desenvolver o militar nas suas diferentes dimensões.
Entre as disciplinas mais marcantes destacavam-se:
• Educação Física: Essencial para garantir o nível de preparação física exigido. Os treinos diários eram duros, exigindo resistência, disciplina e espírito de sacrifício.
• Parte Cultural: Aprofundavam-se os conhecimentos gerais com base no currículo vigente à data para o 12º ano de escolaridade, ética e valores institucionais, incentivando a reflexão crítica e o sentido de missão.
• Componente Militar: Incluía táticas, procedimentos operacionais, liderança e disciplina, fundamentais para o exercício de funções de comando e chefia.
• Legislação da GNR: Estudo aprofundado da legislação aplicável à atividade policial, com enfoque em situações práticas e análise de casos reais.
• Parte Técnico-Profissional: Abordava temas como investigação criminal, operações especiais, gestão de recursos e tecnologias de apoio à atividade operacional.
A diversidade de disciplinas obrigava-nos a um esforço constante de adaptação e aprendizagem, nunca perdendo de vista a missão central de servir e proteger.
A avaliação nos Cursos de Promoção era um processo contínuo e exigente. Baseava-se em testes escritos, provas práticas e, por vezes, avaliações orais. O desempenho em cada disciplina era ponderado para o cálculo da média final, que determinava a posição de cada aluno na turma. O mérito pessoal era, sem dúvida, o fator preponderante: não bastava comparecer, era necessário destacar-se, demonstrar conhecimento, competência e capacidade de liderança.
Os critérios de avaliação eram claros, a exigência muito alta e a margem de erro diminuta.
Durante o curso, deparei-me com inúmeros desafios. A carga horária intensiva, o cansaço físico das sessões de educação física e os testes sucessivos impunham uma pressão psicológica significativa. Houve momentos em que o desânimo espreitava, especialmente quando as avaliações não refletiam o empenho investido. O medo do insucesso pairava sobre todos, pois uma nota insuficiente podia comprometer não só a progressão na carreira, mas também o respeito dos pares e superiores.
A convivência diária com colegas, cada qual com as suas ambições e fragilidades, ensinava-nos a importância da entreajuda e do companheirismo. Aprendemos a gerir o tempo, a ansiedade e a frustração, transformando cada obstáculo numa oportunidade de crescimento pessoal.
Concluí o curso com uma nota final que me orgulha e uma posição na turma que reflete o esforço investido. O sentimento de realização era enorme, ainda que ficasse a noção de que, por vezes, o sistema tinha as suas limitações e nem sempre conseguia captar todo o potencial de cada formando. Contudo, a experiência fortaleceu-me: adquiri competências técnicas e humanas que ainda hoje me acompanham e moldaram o profissional que fui.
Olhando para os cursos atuais, constato que o sistema evoluiu. As exigências académicas aumentaram, as metodologias de ensino modernizaram-se e o nível de formação dos alunos é muito mais elevado. A seleção tornou-se mais criteriosa e são valorizadas competências transversais como a comunicação, o pensamento crítico e a adaptabilidade. No entanto, os desafios persistem: a pressão para conciliar vida pessoal e carreira, as expectativas crescentes da sociedade e a necessidade constante de atualização.
A progressão profissional na GNR não é fruto do acaso, mas do mérito, do esforço e da dedicação de cada um. O curso de promoção foi apenas uma etapa, mas foi nela que muitos de nós descobrimos o verdadeiro significado de servir. Por vezes, a percepção pública ignora as dificuldades e sacrifícios inerentes a esta jornada. Por isso, considero fundamental valorizar e dignificar quem, diariamente, escolhe superar-se para estar à altura das responsabilidades que o país lhe confia.
Partilhar esta experiência é, também, uma forma de prestar homenagem a todos os que trilharam – e continuam a trilhar – este caminho exigente, movidos pela convicção de que o mérito e o compromisso com o serviço público são, e serão sempre, os pilares da nobre instituição Guarda Nacional Republicana.
