Não
sou pessoa de muitas conversas. Herdado do meu pai, homem de poucas palavras, o
silêncio sempre fez parte da nossa vida familiar. Apesar das dificuldades e da
pobreza que marcavam quase todas as famílias rurais da aldeia, vivíamos
serenamente. O quotidiano começava antes do nascer do sol e terminava já noite
cerrada, quando nos reuníamos à luz do candeeiro a petróleo para saborear uma
sopa de legumes feita no lume de chão. Era uma existência marcada por trabalho
duro e poucas distrações, mas também por uma paz discreta, própria de quem
aprendeu a aceitar o que a vida oferecia.
Desde
cedo, encontrei refúgio nos livros. Ler sempre foi o meu entretenimento
favorito; no bornal da merenda levava invariavelmente um livro, grande ou
pequeno, para aproveitar as horas de descanso. Não sei quantos livros já li,
certamente milhares. Em casa, a minha biblioteca cresce sem cessar. Neste
momento, leio "A história de um canalha" de Júlia Navarro, autora que
admiro e da qual possuo vários romances.
Talvez
por isso, nunca me senti só, apesar de não gostar de aglomerados, festas, cafés
ou bares. Para mim, não há companhia melhor do que um bom livro: mergulha-se na
narrativa e quase se vive o que se lê. Por vezes, custa interromper a leitura
para as obrigações do dia - jantar, banho, dormir - sentindo que se abandona
temporariamente um mundo que nos fascina.
Se
não sou solitário, aprecio profundamente a solidão. Gosto da paz que ela me
traz ao caminhar pelos campos, sentir a brisa no rosto, ou sentar-me num cancho
a contemplar o horizonte a escutar o canto dos pássaros. Nada me apazigua mais
do que acomodar-me junto à fonte da Murta a ouvir o murmúrio da água, ou
percorrer as margens dos ribeiros da Cavalinha, das Águas, da Cabeçuda, ou
mesmo do rio Sever. Estes lugares de eleição, espalhados pela freguesia que
tanto amo, fazem parte de mim desde a infância.
Antigamente,
percorria esses recantos sozinho ou acompanhado pelos meus cães. Hoje, já não o
faço sem companhia: a idade pesa, e não convém arriscar sozinho por esses
ermos. O que mudou é que antes havia sempre gente por toda a parte; agora,
reina o mato e o silêncio absoluto, apenas quebrado pela fuga inesperada de
algum javali, raposa ou saca-rabos.
O
amor pela minha terra é profundo. Reconstruí a casa onde nasci, com a intenção
de aí terminar os meus dias. Contudo, a certeza desse destino vacila. As
ausências tornam o regresso doloroso, pois o lugar, apesar de amado, já não é o
mesmo - não é o que eu desejava que fosse para sempre. O silêncio que antes só
se sentia nos campos, agora invadiu a aldeia e soa tão alto que dói nos ouvidos
e na alma.
Vivo
um dilema: resignar-me e esperar mais alguns anos até ingressar no lar ou
revoltar-me e partir, procurando melhores condições noutro lugar, ainda que
longe daqui? Sempre que a razão me sussurra para sair, o coração contrapõe,
lembrando que o meu mundo está aqui. O tempo passa, monótono e nostálgico, sem
vida, cor ou sabor. Admito que já não sou feliz aqui; nem os livros fazem agora
a mesma companhia. Descobri que o silêncio dos campos não era suficiente:
faz-me falta o bulício da aldeia, as luzes nas janelas, os sons de conversas,
os gritos das crianças nas ruas, o cheiro dos jantares, o fumo nas chaminés,
esses sinais de vida, de gente boa, amigos e família, que hoje rareiam
aflitivamente.
Esta
reflexão é o retrato de quem sente um profundo apego ao lugar onde cresceu, mas
também o peso das mudanças e da solidão. O confronto entre razão e coração é
constante, numa busca por sentido e pertença. A nostalgia pelo passado é forte,
mas resta a esperança de encontrar paz, seja neste lugar ou num outro qualquer
ainda por descobrir.
José Coelho
