A beleza das paisagens da minha freguesia transportam-me, vezes sem conta, para um estado de paz que desconhecia, antes de abandonar os protetores muros da minha terra natal.
São quietude que não oprime – antes embala e cura.
Quem viveu a turbulência do mundo, quem sentiu no rosto a poeira da guerra e escutou diariamente o pranto da perda, aprende a valorizar o que é simples e essencial. O "regresso a casa” assume, então, o peso de um renascimento: é refúgio, é abrigo, e, acima de tudo, é reencontro com a própria essência.
Aqui, longe do caos, o tempo tem outra cadência. Cada manhã é marcada pelo chilrear das aves, pelo tilintar dos chocalhos ao longe, pela brisa que atravessa os campos e abana suavemente a folhagem. Só neste silêncio se encontram essas melodias naturais.
As sonoridades do campo tecem uma harmonia onde não há cansaço – apenas consolo e conforto.
Aqui não há sirenes, gritos ou estrondos de explosões; há, em vez disso, o murmúrio doce do vento, o ladrar distante de um cão e o diálogo invisível entre as árvores e as nuvens.
Na rotina da aldeia, cada gesto é uma oração silenciosa pela continuidade da vida, pela esperança renovada após a tempestade. O silêncio rural é, para mim, profundamente meditativo. É neste espaço de sossego que reconstruo, dia após dia, aquilo que a dureza do mundo quase me levou.
A serenidade que me rodeia e a imobilidade aparente do tempo permitem-me revisitar as minhas dores e transformá-las em aprendizagem. Aqui, sinto-me perto do paraíso – não o paraíso idealizado, mas um lugar real, tangível, onde a alma finalmente descansa.
É silêncio que não significa ausência, mas presença: presença de tudo o que é bom, simples e verdadeiro. Depois de confrontar a violência, a miséria e a morte, o regresso ao campo é o reencontro com a vida. Cada som, cada cheiro, cada cor é uma promessa de que, apesar de tudo, a paz é possível.
E foi neste refúgio que reencontrei por fim, o sentimento absoluto de ter voltado para casa.
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