domingo, 26 de outubro de 2025

Os Javalis, os Agricultores e a Lei

Imagem da net

Na região de Nisa, coração do interior português, os agricultores deparam-se há décadas com desafios que vão muito além das dificuldades naturais da lavoura. Um dos maiores flagelos para quem cultiva a terra são os ataques noturnos de javalis selvagens, animais astutos e resistentes, que encontram abrigo nas densas manchas florestais e matagais do concelho.
Esta crónica relata um episódio marcante vivido por um agricultor da aldeia da Velada e ilustra de forma vívida a impotência sentida por quem vê o fruto do seu trabalho destruído, sem respostas efetivas das autoridades.
Abundantes nas florestas que cobrem a maior parte daquele concelho, tornaram-se esses predadores assíduos visitantes das searas, milheirais, pomares e vinhas da região que invadem pela calada da noite em busca de alimento, devastando culturas inteiras e causando prejuízos severos aos pequenos produtores. Não era raro receber queixas dos agricultores no Posto, muitos dos quais, desesperados, procuravam auxílio para tentar mitigar os danos provocados por estes predadores noturnos.
Apesar de serem formalizadas denúncias e elaborados autos de notícia para a Direção-Geral de Florestas, as respostas eram escassas e insuficientes. O encaminhamento dos agricultores para as associações de caçadores locais, na esperança de organizarem montarias, era frequentemente a única alternativa viável, refletindo a ausência de soluções eficazes por parte das entidades competentes.
Foi neste contexto que conheci um pequeno agricultor da Velada, conhecido como “montesinho” designação que é dada aos habitantes das aldeias circundantes de Nisa. Certa tarde, ao passar casualmente pela sua horta, deparei-me com um cenário desolador: cebolas, pimentos, milho e abóboras devastados pelos javalis. O agricultor, visivelmente abatido, aceitou de imediato apresentar queixa, na esperança de ver a sua situação reconhecida.
No entanto, as desventuras não terminaram aí. Menos de um mês depois, o homem voltava a procurar-me, desta vez com a seara de trigo completamente espezinhada e acamada pelos animais. Não consegui esconder a minha indignação perante a apatia das autoridades, sentindo-me impotente para ajudar além do que estava ao meu alcance. Murmurei para mim próprio que, se estivesse na sua posição, talvez recorresse à solução mais “prática” que muitos já adotavam: esperar pelos javalis e abatê-los, apesar da proibição legal.
A legislação portuguesa protege o javali, tornando ilegal o seu abate fora das épocas e contextos autorizados. Isto coloca os agricultores num dilema: arriscar-se à justiça por defenderem as suas culturas, ou resignarem-se à perda do trabalho de um ano inteiro. A frustração é acentuada pela evidente proliferação dos javalis, que encontram nas zonas rurais um verdadeiro paraíso, livre de predadores naturais e com abundância de alimento.
Este episódio teve um desfecho inesperado e caricato. Certa manhã, mal tinha começado a tomar o pequeno-almoço, fui surpreendido pelo agricultor à minha porta, de saco ao ombro. Com ingenuidade e gratidão, confessou-me ter seguido o conselho “implícito” que ouvira de mim, abatendo dois javalis durante a noite e trazendo-me um pedaço em sinal de agradecimento.
A situação tornou-se obviamente embaraçosa e até cómica para mim: rejeitei o presente e pedi-lhe que não contasse a ninguém nem o que ouvira, nem o que fizera, para evitarmos ambos problemas legais. A expressão atónita do “montesinho”, aliada ao divertimento do plantão que presenciou a cena, tornou o episódio lendário na aldeia e motivo de risos sempre que relembrado entre amigos.
Esta história, que ainda hoje faz parte do repertório de anedotas locais, ilustra bem o desespero e a resiliência dos agricultores portugueses perante obstáculos muitas vezes incompreendidos pelas autoridades centrais. Entre a lei e a sobrevivência, muitos acabam por optar pelo que consideram ser o “mal menor”, tentando proteger o pão das suas famílias, mesmo que isso signifique desafiar as regras estabelecidas.
No fundo, esta crónica é também um tributo a todos os “montesinhos” gente do melhor que conheci na minha vida, os quais, de forma honesta e perseverante, continuam a lutar pelo direito de viverem do trabalho da terra, enfrentando sozinhos os desafios impostos pela natureza e pela sociedade.