segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Medo e intolerância político-partidária no Portugal Profundo


O medo de poderem ser associados a determinados projetos políticos, continua a marcar a vida de muitos cidadãos em algumas localidades portuguesas, sobretudo em contextos rurais, onde as relações interpessoais e profissionais se entrelaçam de maneira mais intensa.
Esta reflexão nasce de experiências pessoais e observações diretas, procurando alertar para a persistência de práticas e mentalidades que colidem com os princípios fundamentais de uma sociedade democrática.
É surpreendente e ao mesmo tempo lamentável constatar que ainda hoje muitas pessoas evitam ser vistas a conversar com os candidatos da oposição às autarquias locais. Essa apreensão manifesta-se nos gestos nervosos, nos olhares furtivos, receando que tal interação possa colocar em risco o seu emprego ou o de familiares.
Tão persecutória cultura do medo é alimentada por episódios concretos como o daquela cidadã que viu o seu contrato de trabalho não voltar a ser renovado por associação indireta à oposição política.
Para além da implícita censurabilidade essa "perseguição" infringe o artº 51.º da Constituição da Republica Portuguesa que garante o direito fundamental de liberdade de associação, fundamentado no seu artº 10.º.
Infelizmente, o velho provérbio “quando vires as barbas do vizinho a arder põe as tuas de molho”, permanece tristemente atual, alimentando estratégias de autoproteção e conformismo. No fundo, “mais vale prevenir do que remediar”, mesmo que isso signifique abdicar de direitos e liberdades fundamentais.
Fui um dos primeiros Beiranenses pós-Revolução de Abril de 1974 a migrar não por falta de emprego, mas por motivos políticos, o que me deixou marcas profundas. Em 1975 a intolerância partidária obrigou-me à partida para outros destinos, ensinando-me duras lições sobre a imprevisibilidade da natureza humana, até de pessoas próximas e queridas.
O fenómeno da “partidarite” ou seja o fanatismo político-partidário revela-se especialmente pernicioso nestas pequenas comunidades. A ânsia do poder leva alguns a encarar qualquer adversário como uma ameaça a ser eliminada, recorrendo a práticas discriminatórias de exclusão social e profissional.
O mais doloroso ainda é perceber que tal postura pode até vir do seio familiar ou de amigos de longa data, incapazes de aceitarem o direito à diferença e à livre escolha de cada um.
A Revolução de Abril de 1974 trouxe de facto a liberdade e pôs fim a décadas de ditadura. No entanto passados 51 anos persistem as mentalidades e as práticas que em tudo se assemelham ao totalitarismo do passado:
“Quem não for por mim, é contra mim”.
Esta lógica binária ignora o essencial da democracia, que é o respeito pelo pluralismo e pela divergência de opiniões.
A experiência pessoal de ter sofrido represálias por opções políticas nunca me motivou qualquer desejo de vingança. Pelo contrário, permanece em mim a convicção de que a vida se encarrega de pôr cada um no seu lugar.
Mas importa reafirmar que os adversários políticos não são e nunca serão inimigos, apenas continuarão a ser vizinhos, amigos, familiares, pessoas que defendem ideias diferentes.
Não é admissível que mais de meio século após a Revolução dos Cravos continue a haver quem não compreenda o direito à diferença político-partidária. Esse direito não só está consagrado na CRPortuguesa como também é fundamental para a vitalidade da democracia.
Urge promover uma cultura de tolerância, respeito e diálogo, onde ninguém seja marginalizado ou perseguido pelas suas convicções políticas, pois só assim honraremos verdadeiramente o espírito de Abril e construiremos uma sociedade mais justa, livre e plural.

José Coelho

* Foto Maria Coelho