Vivemos numa época marcada por profundas transformações sociais, onde antigos valores e princípios que outrora serviram de alicerce às famílias e às comunidades parecem estar em declínio face ao surgimento de novos hábitos, padrões e prioridades. Esta realidade tem gerado um sentimento de estranheza e desalinhamento entre aqueles que cresceram sob uma educação baseada em valores sólidos, muitas vezes sendo alvo de críticas ou correções por parte das gerações mais jovens.
Ao longo das décadas, ensinamentos como humildade, simplicidade, sabedoria, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito mútuo e fraternidade foram transmitidos de geração em geração. No entanto, hoje, muitos destes valores são vistos como ultrapassados ou desadequados ao contexto atual. O que outrora era motivo de orgulho transformou-se, por vezes, em alvo de reparos, como se a experiência de vida e a transmissão dos princípios perdessem valor perante as novas tendências e facilidades do mundo moderno.
Este fenómeno é particularmente sentido por quem se dedicou a viver e a transmitir esses valores, sentindo agora a dor de ser frequentemente corrigido ou criticado, sob o argumento de que “hoje já nada é assim”. No entanto, a convicção permanece: não é errado viver segundo aquilo que nos foi ensinado; errado seria abdicar do bom-senso e permitir que a honestidade se tornasse uma exceção.
Há cerca de cinquenta anos, a qualidade de vida e a abundância material eram escassas. Atualmente, existe quase tudo em excesso, exceto aquilo que é mais essencial: o amor ao próximo, a amizade verdadeira, a honestidade, a generosidade, a educação, a disciplina, o respeito, a delicadeza, a sinceridade, a humildade e a fraternidade. Estes valores, cada vez mais raros, são precisamente os que fazem a diferença na construção de uma sociedade mais justa, solidária e humana.
O défice de valores é particularmente visível nas esferas de poder e liderança, onde o exemplo deveria ser a norma. Em vez disso, multiplicam-se casos de corrupção, compadrio e ganância, que servem de mau exemplo à sociedade em geral. Mesmo em ambientes familiares, de amizade ou de trabalho, apesar de ainda haver pessoas de bons princípios, observa-se um crescimento do individualismo, da inveja e da competição desmedida. Muitas vezes, o sucesso alheio desperta ressentimento em vez de admiração, ignorando o esforço e a dedicação necessários para alcançar conquistas legítimas.
Para quem viveu de forma honesta, enfrentando dificuldades e superando obstáculos com integridade, é particularmente difícil aceitar a desvalorização dos princípios em favor do imediatismo ou da sorte. Contudo, é precisamente essa determinação em transformar as adversidades em força, sem recorrer a atalhos, que constitui motivo de orgulho e inspiração. Dizer a verdade, olhar nos olhos, recusar a hipocrisia e manter a coerência entre palavras e ações são ensinamentos que permanecem válidos, independentemente das modas ou tendências.
Manter vivos esses valores é fundamental, mesmo que isso signifique ser visto como “fora de moda”. Num tempo de instabilidade, violência, corrupção, e degradação das instituições, em que o caos diário parece ter-se tornado normal, importa reafirmar que honestidade, idoneidade e respeito não deixaram de ser importantes. Pelo contrário, são estes valores que podem restaurar a confiança, o respeito e a harmonia social.
Não devemos abdicar dos princípios e valores transmitidos pelas gerações anteriores, mesmo que possam parecer desajustados ao presente. O tempo pode alterar costumes e mentalidades, mas a essência do caráter e da integridade permanecerá inalterável. Que saibamos resistir à superficialidade e ao imediatismo, mantendo viva a chama da honestidade, da bondade e do respeito mútuo, para benefício próprio e das gerações futuras.
José Coelho
