Voltar definitivamente para junto da família após três anos de ausência motivados pela frequência dos cursos de promoção a cabo e a sargento em Lisboa, foi motivo de enorme alegria. Os filhos, já crescidos e ávidos pela presença do pai, aguardavam ansiosamente pelos passeios a pé pelos subúrbios da vila – momentos simples, mas carregados de significado, que só o tempo livre permitia saborear plenamente.
Estar novamente junto deles todos os dias dava-me uma sensação de plenitude, pois todo o sucesso alcançado era, sem sombra de dúvida, dedicado àqueles dois pequenitos. Foram eles a fonte de motivação para superar os desânimos, sobretudo perante as limitações académicas sentidas e a complexidade dos currículos dos cursos frequentados.
Após os cinco dias de licença concedidos pelo Exmo. Comandante-Geral da GNR para celebrar o fim do curso, o regresso ao posto de origem deu-se em clima de transição, pois algumas semanas depois chegou a tão ansiada promoção a segundo-sargento e a consequente nova colocação.
A felicidade dominava-me sentindo-me o mais afortunado dos homens. O futuro não me assustava porque os três anos de formação foram vividos com entrega, aproveitando cada ensinamento e conselho, com a disposição firme de aplicar tudo o que tinha aprendido.
Os elogios, ainda que vindos de quem outrora dificultara por vezes o meu caminho, não me inflacionaram o ego. Antes pelo contrário, serviram como exemplo do oportunismo e cinismo que se encontra um pouco por todos os ambientes profissionais.
A minha resposta foi por isso sempre de deferência, pois essa era a melhor forma de evidenciar a enorme diferença de carácter entre nós: os amigos verdadeiros dispensam bajulações e, quanto a vingar-me, sempre repudiei esse caminho por ser um princípio de vida que sempre segui com plena consciência.
No plano institucional as relações com as autoridades civis sempre se pautaram pelo respeito mútuo e disponibilidade. O reconhecimento público, como o do presidente da câmara durante o jantar de promoção, foi motivo de orgulho. Ainda assim, embora me anunciasse a possibilidade da minha colocação em Castelo de Vide, eu já se sabia, por informação reservada, que os planos do comando territorial de Portalegre eram outros.
O meu destino seria a Companhia de Portalegre sim, pois a boa classificação alcançada nos cursos assim o determinava, ficando apenas duas vagas na zona – uma em Avis e outra em Nisa – devido a uma transferência já efetuada. E a sorte voltou a sorrir-me quando, ao ser convocado para receber a guia de marcha, o colega e amigo que ficou em primeiro lugar ofereceu-me a possibilidade de escolher o posto que melhor me conviesse.
Sendo ele solteiro, não lhe fazia qualquer diferença, e, conhecendo a minha situação familiar, demonstrou uma generosidade que jamais será esquecida. Os laços de amizade e de verdadeira camaradagem, construídos ao longo dos três anos dos cursos, foi decisivo para que eu pudesse optar por Nisa, para assim ficar mais próximo dos meus.
Desse modo, com o coração cheio de esperança e boas intenções, pouco tempo depois a família seguiu-me para Nisa, uma vila cheia de encantos onde a sua população nos acolheu com o seu calor humano desde o primeiro até ao último dia, o que agradeceremos e nunca esqueceremos na nossa vida.
Foram oito anos de inesquecível convivência com aquela gente tão boa, pessoas extraordinárias com quem fizemos amizades que perduram até hoje passadas já quatro décadas, porque ficaram para sempre na nossa memória e coração como sendo os melhores anos das nossas vidas.
