Sentado no cimo de um cancho, olho a paisagem que se estende à minha frente, marcada pelo traço largo da raia e pelo correr do rio Sever, que circunda toda a freguesia da Beirã até aos limites de Castelo de Vide, lá para os lados da Defesa.
Visto daqui, tudo me é familiar: cada cancho, cada recanto entre as pedras, cada reviravolta dos regatos e das ribeiras, cada barroca escondida, cada fonte fresca, cada palheiro ou antiga habitação.
Até do outro lado do rio, em Espanha, conheço aquele casario branco: a Finca das Gagas, onde o tio Joaquim, irmão mais novo do meu avô materno guardava um rebanho de cabras e onde eu passava as férias grandes com os primos António e Joaquim. Hoje, resta-me apenas a saudade de ambos pois já não os posso abraçar.
O meu olhar detém-se demoradamente na casa em ruínas da avó Amélia e do avô-padrinho José Lourenço, encostada ao Ribeiro da Cavalinha. Basta-me cerrar os olhos para reconstruir mentalmente os dias maravilhosos vividos com aquelas duas santas criaturas. Na sua honrada pobreza, eram felizes sem o saberem.
Como não recordar a sopinha de batatas guisadas feitas ao lume na sertã e no unto do toucinho previamente frito para servir de conduto, que sabia melhor do que qualquer manjar de rico?
E a avó Amélia sentada ao sol a remendar as roupas gastas enquanto o avô Zé se dedicava a moldar com a navalha os bocados de cortiça com que construía depois os seus pássaros?
Lembro-me também da enorme cerejeira carregada de negras e doces cerejas ao lado da caseta, e da sua boa vizinhança. A senhora que era guarda da passagem de nível, a ti Ana do Galacho e o filho Zé Joaquim, o ti Zé Tomé…
Gente de bem, gente do melhor que conheci. Deus os tenha a todos na sua glória.
Hoje o abandono tomou conta da casa e só a robusta cancela de ferro pintada de cor-de-rosa permanece ainda firme, embora inútil. O telhado ruiu, a cozinha foi vandalizada, as pedras da lareira desapareceram.
Pouco importará tudo isso ao mundo, mas a mim, que lá vivi e fui feliz, importa-me muito. Aquele lugar fala-me de valores e de um tempo em que pouco se tinha, mas tudo se respeitava sem o menor esforço ou obrigatoriedade.
A essência das pessoas era naturalmente assim.
À direita, na paisagem solitária, ergue-se a Murta, restaurada por quem também é de cá e ama estas terras. Os canchos multiplicam-se até ao horizonte, bordejados por sobreiros, azinheiras e carvalhos.
Por esses caminhos andei muitas vezes com contrabando às costas, rumo à loja espanhola do Batão ou do Bravo. Levávamos ovos e outras miudezas, regressávamos com miganas, toucinho salgado, algum chocolatito barato lá muito de vez em quando.
Fui perseguido pelos guardas-fiscais – lembro-me do dia em que atirei um presente de aniversário para a namorada para detrás de uma parede ao ver o senhor Gonçalves e o senhor Correia à nossa espera. Fui apanhado, mas, talvez por compaixão, o senhor Gonçalves devolveu-me o embrulho:
“Leva lá isso, mas para a outra vez ficas sem ele, para não te armares em esperto…”.
São tantas e tão boas recordações! Eram tempos duros sim, mas havia trabalho para todos, não se falava em desemprego e ninguém dependia de subsídios. O trabalho começava quase assim que se aprendia a falar e a andar, muita gente nasceu, viveu e morreu sem nunca de cá ter saído.
Se os nossos pais e avós pudessem voltar alguma vez, dificilmente reconheceriam este mundo novo tão vazio de valores e princípios, incapaz de proporcionar a felicidade que eles desfrutavam. A sua bondade seria hoje impraticável por já não existir na maior parte dos corações.
Olhando para trás percebo que a verdadeira riqueza eram as pessoas, os afetos, o trabalho honesto e a comunhão com a terra.
As paisagens não mudaram, mas as casas envelheceram e as pessoas são completamente diferentes. Só as memórias de tudo o que conheci e vivi permanecem inalteradas apesar de inúteis, como a cancela cor-de-rosa dos meus dias felizes.
Texto e foto
