sábado, 18 de outubro de 2025

Vida, natureza, raízes


Adoro mexer na terra com as mãos, sentir o seu odor bendito e observar cada semente a brotar e a transformar-se em robustas plantas. Entretenho-me tardes e dias inteiros no quintal sem quase dar pelo passar das horas. Não há nada mais saudável, pacífico e relaxante. O contacto com a natureza proporciona uma paz inigualável, algo que não se encontra facilmente nos ambientes urbanos ou na azáfama do quotidiano moderno.
Um grande amigo doutor em leis e proprietário de uma quinta nas redondezas, afirma com convicção: “um dia na minha quinta é mais tranquilizante do que uma ida ao psicólogo”. Concordo com ele em absoluto. A serenidade que emana da natureza é, sem dúvida, mais benéfica que muitos medicamentos, proporcionando um benfazejo equilíbrio entre o corpo e a mente.
Como escreveu uma autora que leio frequentemente, “nasci em tempos rudes e aprendi a viver nesses tempos”. A dureza do passado forjou o meu carácter. As pessoas eram rudes no trato exigido pelas dificuldades da vida, mas a sua rudeza nada tinha de maldosa. Pelo contrário, eram de uma pureza de princípios e de carácter que hoje quase se desconhece. Sinto uma saudade inexplicável desses tempos e das pessoas que os habitaram, uma nostalgia que cresce cada vez mais com o passar dos anos.
A minha pequena horta abastece a família de verduras durante todo o inverno. Mas mais do que a colheita é o uso das alfaias agrícolas herdadas do meu pai – enxadas, sachos, forquilhas, ancinhos, rodos, pás, picaretas – que me transporta até ele. Imito-lhe o modo de fazer, a precisão de cada rego na terra, a atenção ao detalhe, o carinho com que cuidava das pessoas, dos animais e das plantas.
Esse esmero e essa dedicação quase ingénua, tornavam-no respeitado e muito estimado por toda a gente.
Recordo-o com tamanha nitidez que às vezes, parece-me sentir no quintal o cheiro do tabaco de onça e mortalha que trazia no bolso do colete e o acompanhavam sempre. O seu hábito de fumar era peculiar, nunca aspirava o fumo, apenas o saboreava entre os lábios. Assim viveu serenamente até aos 83 anos quando um tumor na próstata o venceu.
A sua presença na minha saudade é tão forte que quase se torna física.
Creio que três quartos do meu ADN lhe pertencem – até o meu rosto hoje é quase uma cópia do dele – por isso só o outro quarto é da minha mãe. Ainda assim fui abençoado desde o nascimento até à sua partida pelo amor profundo e incondicional dela. Nunca me senti pobre ou carente, apesar de o dinheiro ser sempre à conta, por vezes até esticado.
Mas de afetos, honradez, educação e respeito, sempre fomos milionários nesta família.
Procuro, desde cedo, imitar esses dois meus grandes mestres. Principalmente o seu exemplo, pois acredito que ele ensina mais do que muitas palavras. Sinto-me bem-sucedido, pois os meus filhos, pela sua vida honrada, são o meu maior orgulho e felicidade.
Não me incomoda nada que nenhum deles tenha escolhido aprender a cavar e a plantar a terra como o seu pai aprendeu com o avô. Cada geração tem as sua peculariedade e nenhuma é melhor ou pior do que a anterior; assim como as vindouras também não o serão em relação à atual.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas existe uma verdade que permanece, venha o tempo que vier: quem quiser colher, tem de saber semear – na horta ou na vida. Esta máxima ecoa tanto nos campos como no coração, sendo um legado valioso que atravessa gerações.
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