O trabalho rural tradicional por estas minhas bandas nos finais do século passado era o espelho de uma sociedade que, durante muitos séculos, viveu em harmonia com a terra e a natureza. Este relato pretende resgatar a memória dessa forma de trabalho, explicando conceitos como “a jorna” e “os justos”, descrevendo as condições de vida, os métodos de pagamento – como as “comedias” – e refletindo sobre as estruturas rurais que sustentavam as famílias, contrastando esse passado com a atualidade.
Ser “jornaleiro” significava viver do trabalho diário, sem qualquer vínculo duradouro com o proprietário das terras. O termo “à jorna” vem, precisamente, do pagamento por jornada de trabalho: o homem e a mulher acordavam cedo, muitas vezes ainda de noite, e dirigiam-se a casa de quem precisava deles nesse dia. Tarefas como mondar as hortas, sachar as vinhas, arrancar batatas ou ceifar as searas marcavam o ritmo das estações. Havia uma grande sazonalidade: na Primavera e no Verão o trabalho abundava, mas no Inverno escasseava e com ele as moedas que garantiam o sustento.
A instabilidade era uma constante. Não raras vezes, a chuva inesperada durante vários dias, semanas até, ou uma má colheita, deixavam as famílias em situação precária. Ainda assim, o trabalho “à jorna” era dignificado por muita solidariedade e sentido comunitário.
Diferente do jornaleiro era o “justo” – trabalhador assalariado com vínculo anual, geralmente ajustado no início do ano agrícola, no São Miguel. O ajuste era apenas verbal, selado por um aperto de mão e pelo respeito mútuo. O “justo” comprometia-se a servir o mesmo patrão durante todo o ciclo agrícola, garantindo-lhe maior estabilidade e, muitas vezes, algum prestígio na comunidade.
Além das tarefas do campo, o “justo” cuidava de animais, reparava ferramentas, mantinha as estruturas da herdade e ajudava nas lides domésticas. Em troca recebia habitação modesta, pequenas parcelas de terreno para cultivar para si e o vencimento combinado, muitas vezes com uma parte em géneros.
Raramente o pagamento do trabalho rural tradicional era feito apenas em dinheiro. As “comedias” ou géneros alimentares faziam parte fundamental da remuneração: alqueires de centeio, feijão, azeite, queijos secos. Esses géneros eram essenciais para garantir o sustento familiar ao longo do ano.
As “comedias” eram, muitas vezes, partilhadas entre vizinhos em tempos de necessidade, reforçando os já referidos laços de solidariedade. O dinheiro servia para comprar o que a terra não dava: mercearias, sal, sabão, roupas, ou pagar o médico.
O mundo rural girava em torno de estruturas essenciais: os fornos individuais ou comunitários onde se cozia o pão e se partilhavam histórias; as eiras, espaços de trabalho coletivo nas debulhas e secagem dos cereais; as hortas, autênticos tesouros de verduras e legumes sempre cuidadas com esmero; e as fontes, onde se ia buscar água fresca, se lavava a roupa, mas também se trocavam novidades e se fortaleciam amizades.
Cada família tinha o seu pequeno universo abastecedor: uma horta, um galinheiro, um porco no curral, uma figueira e outras arvores de fruto para adoçar os finais de Verão e alguns até uma pequena vinha. Estas estruturas não eram apenas utilitárias, eram locais de encontro, de festa, de partilha, e, sobretudo, garantiam a sobrevivência e a felicidade possível.
Recordo com saudade as brincadeiras na eira, o cheiro do pão quente saído do forno a lenha, as tardes passadas a apanhar feijão com a família reunida, enquanto as conversas corriam soltas. O agricultor sabia, como ninguém, tirar proveito de cada canto da terra. Ainda se vêem nas aldeias do Alentejo, muitas marcas desses tempos: fornos abandonados, eiras e hortas cobertas pelo mato.
Hoje as máquinas substituíram as enxadas, os campos foram deixados ao abandono e as famílias dispersaram-se. O progresso trouxe conforto, mas também a perda de uma sabedoria ancestral e de formas de felicidade simples, feitas de trabalho partilhado e de alimento tirado da terra.
A história social do trabalho rural marvanejo é feita de resiliência, partilha e respeito pela terra. Os conceitos de “à jorna” e “justos” recordam-nos a dignidade do trabalho, mesmo nos tempos mais duros. As “comedias”, os fornos, as eiras e as hortas eram os pilares de uma vida em comunidade onde a sobrevivência se tecia em conjunto.
O abandono destas estruturas é também o de parte da nossa identidade coletiva. Resta-nos o legado de quem soube viver com pouco e conseguia ser feliz, ensinando-nos, ainda hoje, o valor do essencial.
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