Foto Pedro Coelho
Desde 1958 que o Senhor do Sacrário e a Senhora do Carmo lá do seu altar, me veem cirandar por ali a seus pés. Tinha apenas seis anos quando o reverendo pároco Joaquim Caetano me escolheu para seu acólito nesta igreja da Beirã.
Naquele tempo, gaiatos éramos às dezenas na aldeia, mas o ilustre clérigo preferiu a minha insignificante figura, o que para os meus pais foi uma honra, tendo em conta a enorme possibilidade de escolha entre tão diferenciada oferta, muitos dos quais sempre mais bem vestidos e aperaltados do que eu, por serem filhos de famílias abastadas ou de funcionários públicos.
O sacristão que eu fui substituir já começava a ser crescido e queria deixar essas funções para se dedicar a outras mais próprias da sua idade. Chamava-se António Sarzedas "o sapateiro", alcunha por que todos o conhecíamos.
Encarregou-o o padre de me ensinar as regras e procedimentos do altar, desde acolitá-lo na eucaristia, ao responder em latim às suas locuções "et cum spiritu tuo" quando ele pronunciava "dominus vobiscum" e muitas outras lenga-lengas das quais eu não percebia patavina mas aprendi a decorar na ponta da língua.
Interessante também foi ter de aprender a tocar os sinos. Para a missa, para os funerais, casamentos e batizados, também para as procissões. Cada toque tinha o seu ritmo próprio.
Tudo assumi sem dificuldades de maior, de tal modo que ainda hoje me recordo de muitas partes da missa em latim, e até do Tantum Ergo Sacramentum completo para a adoração do Santíssimo.
E como se isso não fosse já quase uma licenciatura, sou também o último tocador de sinos com carteira profissional nesta paróquia e arredores.
Exerci então o "oficio" de sacristão até terminar a escolaridade obrigatória em julho de 1962, ano em que fiz o exame da 4ª classe e o meu pai me arranjou um patrão para, logo no dia seguinte, eu ir trabalhar. Assim deixei de poder ir à missa e muito menos acolitá-la, mas sempre que podia lá ia fazer uma visitinha ao Jesus do Sacrário e à Senhora do Carmo porque sempre "senti" que eles me ajudavam e protegiam.
Essa proteção foi muito mais sentida quando fui para a guerra em Angola durante vinte e sete terríveis meses mas regressei a casa sem um arranhão, ao contrário de um grande número de camaradas que foram comigo, mas não regressaram nem sãos, nem salvos.
E não só.
Todo o meu percurso de vida foi um espelho da bondade do Divino e da ajuda da Senhora do Carmo. Assim creio e o afirmo sem tiques de beatice, apenas pela mais inequívoca e determinada convicção. Eu é que sei os apertos por que passei, as aflições e angústias que me atormentaram e a forma milagrosa como consegui ultrapassar ou vencer cada uma delas.
É muito fácil as pessoas opinarem sobre o que não sabem, denegrirem o seu semelhante e darem palpites, mas quem tem as dores é quem as sente. O resto são tretas, muitas vezes mal-intencionadas, vindas de quem não tem escrúpulos.
Por tudo isso e muito mais, tão depressa estabeleci residência definitiva na Beirã, imediatamente regressei com carácter permanente ao meu desempenho na igreja e paróquia onde ele seja necessário e esteja dentro do meu alcance. E lá continuo ainda, desde novembro de 1993.
Faço-o por gratidão e dedicação, mas, sobretudo, por espírito de missão.
Somos hoje já tão poucos os paroquianos que cruzamos a porta da igreja para nos aproximarmos daquele que há mais de 70 anos é o mais ilustre habitante da aldeia dentro do Sacrário, o Santíssimo Sacramento, que há celebrações em que os participantes se contam pelos dedos de uma só mão.
Sei, tenho plena consciência, que não estará muito longe o dia em que o Bispo da Diocese irá decidir dessacralizar a igreja da Beirã que ficará a ser, a partir daí, apenas mais uma bonita capela sem a presença do Santíssimo, como há já tantas.
E vai doer-me, como me dói cada vez que mais uma casa fica sem os vizinhos queridos, para ser transformada num Alojamento Local a tentar encher as ruas de turistas.
Para mim, pessoalmente, uma igreja sem o Senhor no Sacrário é uma casa vazia, mesmo que esteja a abarrotar de gente.
Não sou, como escrevi lá atrás, só o único tocador “profissional” dos sinos nestes arredores, como sou também já o único salmista que se prepara em casa durante a semana para subir à Mesa da Palavra a entoar os Salmos que solenizam cada Eucaristia.
Não sou cantor, nem o faço para me exibir. Faço-o por dever de consciência, por amor à minha igreja e para que, enquanto seja possível, a nossa Eucaristia semanal continue a ser um momento de reflexão e de paz interior para cada participante na mesma.
Até quando? Até que Deus queira.
