Onde há raia, houve sempre contrabando. E com ele, inevitavelmente os contrabandistas e as histórias que atravessam gerações, contadas ao calor de uma lareira ou à sombra de uma árvore, entre sorrisos tímidos e olhares cúmplices. Nas margens do rio Sever, que delimita a nossa freguesia, essas histórias ganharam corpo e alma, personificadas por homens e mulheres que de noite caminhavam por veredas e matos, arriscando tudo em nome do sustento familiar.
Tive o privilégio de conhecer alguns desses valentes, muitos deles da minha própria família. Gente de poucas palavras, de rosto fechado, honestos e respeitáveis, que, contrariando a lei, apenas procuravam garantir pão para as bocas dos filhos. O contrabando era, para eles, uma “profissão” como outra qualquer, embora arriscada e condenada pela autoridade. As longas caminhadas noturnas, as cargas de 30 quilos às costas, as travessias do Sever em noites de invernia, tudo faz parte de um quotidiano onde a coragem era moeda corrente e o medo, um companheiro constante.
Numa terra onde a agricultura mal dava para sobreviver, o contrabando era uma alternativa viável e, muitas vezes, mais rentável do que qualquer trabalho rural. Mesmo as crianças ajudavam, levando produtos simples como ovos para Espanha, e trazendo de volta azeite, toucinho, pão ou conservas, bens essenciais que não se encontravam facilmente deste lado da fronteira. Os enxovais das noivas vinham aos poucos, peça a peça, numa epopeia doméstica de resistência e engenho.
Os contrabandistas profissionais enfrentavam noites de tensão, sempre atentos aos passos dos guardas fiscais portugueses e dos guardas-civis espanhóis. O risco de serem apanhados era real e, caso acontecesse, a perda era total: da carga, do esforço, do ganho da noite. Porém, o ciclo recomeçava, porque o importante era não ser apanhado, não ser preso, não trazer problemas mais graves para casa.
O contrabando era uma “profissão” que passava de pais para filhos, de avós para netos. Em todas as aldeias e lugarejos da raia - Beirã, Cabril, Bica, Pereiro, Barretos, Vales, e tantos outros - a história era a mesma. Ao cair da noite, formavam-se grupos secretos, traçavam-se percursos, vigiavam-se movimentos, e partia-se para a aventura. Assim que a juventude tinha força para carregar, ingressava no grupo, perpetuando a cadeia de sobrevivência coletiva.
As mulheres também eram protagonistas desta história. Embora transportassem cargas mais leves, enfrentavam os mesmos perigos, cruzando rios e ribeiros para ajudar no sustento do lar. Vi muitas vezes a minha mãe e tias enrolarem-se em tecidos espanhóis, contrabandeando-os metro a metro, peça a peça, até chegarem às mãos dos alfaiates locais.
Curiosamente, guardas fiscais e contrabandistas conviviam lado a lado, partilhando as mesmas aldeias e até, por vezes, os mesmos laços familiares. Alguns guardas, filhos de contrabandistas, conheciam todos os truques e atalhos, o que lhes dava vantagem tanto para vigiar como para enganar. Não era raro ver, com estes olhos que a terra há de comer, guardas a contrabandear café nos bolsos das fardas. Afinal, os salários eram baixos e a necessidade, grande.
O que se contrabandeava? Um pouco de tudo: volfrâmio, café, especiarias, relógios, tabaco, papel de fumar, máquinas de costura, gado e até utensílios domésticos. Mas mais do que mercadorias, cruzavam-se na raia contactos, afetos, palavras e sabores. A topografia e a língua de ambos os lados foram-se misturando, assim como a gastronomia, criando uma identidade raiana única.
Hoje as histórias de contrabando pertencem ao passado. Os guardas fiscais desapareceram, os caminhos estão desertos e as noites tranquilas só são perturbadas pelos javalis. As aventuras acabaram, mas as memórias - embora se vão diluindo - continuam a ser o testemunho de uma época em que o contrabando foi o pão de muitas famílias. Uma memória comum a todas as aldeias da raia, onde o contrabandista foi, acima de tudo, protagonista de uma luta digna pela sobrevivência.
José Coelho - Texto e foto
.jpg)