Inverno de 1981, Castelo de Vide. O relógio aproximava-se do meio-dia e comandava a patrulha de 24 horas de prevenção – o antigo piquete – na companhia de um camarada mais novo. O turno já ia longo e regressávamos ao posto para almoçar. Foi então que o plantão, agitado, nos chamou no carreiro do jardim, com uma urgência que se sentia na voz. Tinham acabado de telefonar do Pouso: duas senhoras estavam mortas, dentro da casa de uma delas.
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sábado, 18 de outubro de 2025
Enquanto houver esperança
Imagem da net
Cinco minutos depois, estávamos no local. O ambiente era de incredulidade e ninguém tinha tido coragem para entrar, ninguém quisera tocar em nada. Pela janela, conseguia ver-se claramente as duas senhoras sentadas num sofá, imóveis, inertes. A decisão surgiu-me automática: forçámos a porta e entrei de rompante, guiado pelo raciocínio rápido e tudo o que os meus olhos e instinto me gritavam.
Logo que entrei percebi a gravidade do cenário: o ar devia estar saturado do inodoro monóxido de carbono de um braseiro que as senhoras tinham preparado para aquecer o seu serão televisivo. Corri para a janela e abri-a de par em par, na tentativa desesperada de arejar aquele espaço exíguo. A televisão ainda estava ligada, mas só transmitia o formigueiro cinzento no ecrã – um testemunho daquele tempo em que a emissão da RTP acabava à meia-noite e não existiam canais privados.
Observei as vítimas. Uma das senhoras aparentava estar morta há algum tempo pois o vómito agarrado ao queixo já estava seco, mas ainda assim procurei sinais de vida – sem sucesso. A outra, contudo, ainda estava morna. O rosto mantinha alguma cor, como se estivesse apenas a dormir. Coloquei o ouvido no peito dela e ouvi, ténue, um batimento irregular. Um estertor deu-me a entender que a vida lhe fugia pouco a pouco, mas também reacendeu em mim a esperança de a conseguir safar.
Lembrei-me imediatamente dos primeiros socorros aprendidos na tropa e depois mais tarde no alistamento para a guarda.
Pedi ao meu colega que me ajudasse a levar a senhora para a rua. Deitámo-la no chão sobre uma manta ao ar frio daquele início de tarde. Desapertei-lhe a roupa para facilitar a respiração: tudo indicava que precisava apenas de ar, mas não conseguia obtê-lo sozinha.
Era a primeira vez que me via a braços com uma situação destas, mas hesitar não era opção. Com muita determinação, comecei a aplicar a técnica de reanimação: enchi o peito de ar e insuflei-lho boca a boca, depois comprimi o tórax com força, seguindo as instruções que tinha memorizado. Um, dois, três... e repeti o ciclo quatro ou cinco vezes.
Apesar do nervosismo e da inexperiência, julguei perceber uma ligeira reação. A teoria parecia sempre fácil nas aulas; a prática, no entanto, era bem diferente. A senhora tinha o queixo rígido, a boca mal abria. Dificultava-me ainda o volume dos seios, sem saber ao certo onde carregar no peito sem lhe provocar dor. Tinha-a descomposto desapertando-lhe a blusa, o sutiã, a cintura da saia e as ligas das meias para restaurar a circulação sanguínea e dar-lhe hipótese de respirar melhor.
Insisti na insuflação de ar, repeti as compressões: boca a boca, um, dois, três... E então, de repente, um suspiro fraco. Um som quase impercetível, seguido de tosse, vómito e, por fim, sinais de a respiração começar a normalizar, ainda que com dificuldade.
O alívio e a emoção tomaram conta de mim. Só consegui pensar:
– Catano, consegui!
Naquele dia, no coração do Alentejo, entre o medo da morte e a hipótese da vida, tive a confirmação de que nunca devemos desistir enquanto houver um fio de esperança. A prontidão e a memória dos ensinamentos salvaram uma vida. E ficou para sempre gravada em mim a lição: às vezes, um simples gesto, uma decisão sem hesitação, pode mudar tudo.
