Por mais cautelosos que sejamos há sempre alguma coisa que escapa ao nosso controlo. O imprevisível faz parte da existência humana, lembrando-nos diariamente os limites do nosso discernimento e da nossa capacidade de antecipação. Na trajetória de cada um de nós, tudo sucede como tem de suceder.
Não há força, por maior que seja, capaz de alterar o curso dos acontecimentos destinados a cruzar o nosso caminho. A prudência, o cuidado e as melhores intenções são virtudes essenciais, mas jamais serão suficientes para antecipar o inesperado. Aceitar essa limitação é um exercício de humildade perante a vida.
Confiar que os outros partilham das nossas boas intenções é, em si, um sinal de humanidade e normalidade. Até prova em contrário, todos merecem o crédito da confiança, o respeito e a dignidade de quem com eles convive. Esta postura, que desde cedo me foi incutida, é fruto de uma educação pautada por princípios sólidos, muitas vezes ausentes de títulos ou pergaminhos, mas ricos em valores fundamentais.
Aprendi, pelo exemplo constante dos meus mestres de vida, que a bondade, a honestidade, a educação e o respeito não são apenas virtudes individuais, mas sim sementes que, ao multiplicarem-se, sustentam a dignidade humana. Esses princípios, simples na sua essência, mas exigentes na sua preservação, são a base de uma convivência justa e harmoniosa.
O percurso da nossa vida é, inevitavelmente, feito de encontros com o melhor e o pior da natureza humana. Felizmente as experiências positivas prevaleceram no meu caminho, mas foi através das negativas que conheci a face mais sombria da alma das pessoas. Não me detenho em queixumes; guardo essas recordações no sótão da memória como marcadores úteis para reaprender a superar a dor, quando situações semelhantes regressam.
Essas experiências adversas, apesar de menos frequentes, têm um peso emocional acrescido. Novos protagonistas mais instruídos ou letrados surgem, mas a desilusão e a amargura que provocam mantêm-se inalteradas, ou até se agravam. Os títulos académicos não têm o poder de transformar almas que já nasceram com tendências perversas.
Não está ao nosso alcance mudar a essência do outro, nem há virtude ou valor que consiga florescer num coração árido. A esterilidade de certas almas não é culpa da semente, mas sim da terra que a recusa. Ainda assim, mesmo ciente dessa limitação, nunca abdico da esperança e do esforço diário por um mundo mais justo e digno
As minhas capacidades podem não ser vastas, mas são verdadeiras e refletem o legado de quem me formou. Agradeço todos os dias pelos valores e princípios que me moldaram e mantenho o compromisso de os praticar e transmitir, confiante de que, mesmo diante das adversidades, vale a pena lutar pelo bem, pela justiça e pela dignidade.
Viver de acordo com os nossos princípios é aceitar que nem sempre colheremos apenas flores, mas é nessa coerência e persistência que reside a verdadeira grandeza humana.
