Ao longo da nossa vida muitos de nós julgamos que as melhores heranças a herdar dos nossos pais e avós serão os bens materiais. No entanto, o verdadeiro legado que permanece, resiste ao tempo e molda o nosso carácter, são os princípios e valores transmitidos pelo seu exemplo vivido no dia a dia.
É sobre essa herança, profundamente enraizada na experiência familiar e na cultura das pequenas aldeias, que hoje me debruço nesta reflexão.
Aprendi desde cedo, não pela retórica mas pelo exemplo diário dos meus pais e avós, a importância de estar sempre disponível para ajudar o próximo dentro das minhas possibilidades. Essa aprendizagem não aconteceu por discursos, mas pelo testemunho silencioso de pequenos gestos repetidos ao longo dos anos.
O altruísmo e a solidariedade eram neles praticas comuns, mesmo sendo escassos os seus recursos.
Os relatos dos meus avós sobre a sua disponibilidade para apoiarem os fugitivos da guerra civil espanhola eram exemplos vivos de autêntica solidariedade. Apesar dos seus parcos recursos nunca recusaram auxílio a quem, pela calada das noites lhes batia à porta em desespero. Fosse um naco de pão centeio, uma caneca de café de cevada quente ou uma tigela de leite de cabra, partilhavam sempre o pouco que tinham.
Gestos silenciosos de profunda compaixão humana, praticados por quem compreendia o verdadeiro significado da partilha.
Também os meus pais seguiram este caminho. Fomos sempre uma família humilde, tal como os nossos vizinhos, mas a nossa casa, embora pequena e apertada, esteve sempre aberta para acolher quem precisasse, fossem familiares em apuros ou vizinhos em dificuldades.
O seu carinho e generosidade nunca foram impedidos pela exiguidade das condições, pois o que se partilhava era mais do que bens materiais: era humanidade.
A solidariedade que vivi e aprendi não se confunde com intromissão ou curiosidade desnecessária na vida alheia. Ser solidário é estar atento, agir com discrição e ajudar sem esperar reconhecimento ou direito a julgar o próximo. Cada pessoa tem o seu caminho e merece respeito pelas suas opções, tal como eu espero que respeitem as minhas.
Auxiliar não é impor, é apoiar sem exigir contrapartidas, mantendo sempre a humildade e a discrição.
Apesar de hoje vivermos genericamente em melhores condições, noto com tristeza que a solidariedade de outrora se esvaiu. O individualismo tomou o lugar da entreajuda genuína, e muitos já não se preocupam com o bem-estar do outro. Resta-me manter-me fiel aos princípios herdados, agindo conforme me ensinaram.
Reconheço que, como qualquer ser humano, também erro. Mas o importante é saber assumir os erros, arrepender-me e pedir desculpa com honestidade sempre que necessário. O conselho sábio do meu pai, homem simples de grande sabedoria - faz boa letra filho e o diabo que a leia - é um lema que procurei sempre seguir.
Viver com retidão, independentemente do que os outros possam pensar ou dizer.
A maior herança que deles recebi foi, sem dúvida alguma, o seu exemplo de solidariedade, humildade e retidão. E são esses valores que procuro continuar a praticar e a transmitir, consciente de que mais do que qualquer bem material, são eles que dignificam a existência humana.
A vida é feita de gestos, por vezes pequenos, mas que podem fazer toda a diferença na vida de quem nos rodeia.
