quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Tempos do caraças


A colocação em Portalegre após o término do curso de formação de guardas – na altura denominado alistamento – proporcionou-me finalmente o contacto direto com a tão debatida Reforma Agrária. Esse processo, resultado da Revolução de Abril, foi, para muitos, uma iniciativa política marcada por intensos conflitos entre os proprietários das grandes herdades e os grupos que, de forma irregular, as ocupavam. O ambiente era de tensão constante, alimentado por divisões políticas e sociais profundas.

No centro desta disputa, a Guarda tinha uma missão delicada: mediar o conflito e garantir a manutenção da ordem pública. Era nossa responsabilidade evitar desacatos, proteger técnicos do Ministério da Agricultura e seus delegados, e, acima de tudo, fazer cumprir a lei, mesmo que, por vezes, tal implicasse o uso da força. Para estas operações, militares de vários postos eram diariamente destacados, formando secções ou pelotões cuja dimensão variava conforme o risco previsto para o local em causa.

Os dias eram exigentes e atribulados. Percorríamos estradas de terra batida dentro dos antigos e robustos Land-Rover expostos ao pó, ao calor e ao desgaste emocional. O ambiente hostil era agravado pelos insultos e provocações constantes: “cabrões”, “filhos de puta” – expressões que, com o tempo, se tornaram parte do quotidiano da missão. Muitas vezes objetos eram arremessados contra nós, numa clara demonstração de revolta e incompreensão por parte daqueles que viam na nossa presença uma ameaça ou uma imposição do poder governamental.

Houve momentos em que os desacatos ultrapassaram o plano verbal e se tornaram físicos, obrigando a tomadas de posição enérgicas para restaurar a ordem. A aversão mútua entre as duas partes – trabalhadores rurais e GNR – era quase palpável e não sei bem qual delas detestava mais a outra, alimentando por isso mesmo um antagonismo visceral entre ambas.

E não podia ser de outra maneira perante quadros de tão manifesta agressividade e violência verbal como aquele que eu acabara de protagonizar com um sindicalista que, cara a cara e mesmo em frente ao tribunal de Ponte de Sor não se intimidou com o aparato policial montado de viaturas em grande número, pessoal armado com bastões, espingardas e binómios homens-cães afim de dissuadir qualquer tentativa de invasão da Domus Iustitae onde estava a decorrer o julgamento de alguns trabalhadores desordeiros que tinham sido detidos por agressão às autoridades na entrega de uma herdade.

A olhar-me ferozmente olhos nos olhos, vociferou:
- Quando a gente deixar de trabalhar, vocês vão comer espingardas, bastões, jipes e cães-polícias, porcos fascistas!

O que mais me marcou nem foram as suas palavras mas o olhar carregado daquele visceral ódio. Nessas situações a disciplina era fundamental. Estávamos instruídos para nunca ripostar individualmente independentemente da gravidade das ofensas. Qualquer reação só poderia ocorrer mediante ordem expressa do comandante da força presente; a tolerância a atitudes pessoais era inexistente. Os insultos deviam ser considerados dirigidos apenas à instituição como um todo, não a cada guarda em particular.

A missão de manter a ordem pública durante toda a essa epopeia agrária foi dura e exigente, marcada por semanas e meses de tensão, desgaste emocional e desafios constantes. O compromisso de não provocar nem alimentar conflitos, mas sim de os evitar, exigia de todos nós uma enorme capacidade de resiliência e abnegação. Foram tempos “do caraças”, que deixaram marcas profundas e memórias indeléveis de um período singular da história portuguesa.
Imagem:
Arquivo digital do Diário do Alentejo