O ano de 1974
marcou um ponto de viragem irreversível na história recente de Portugal. O
regresso da guerra associado à Revolução dos Cravos, trouxe um fluxo de jovens
soldados e famílias desmembradas, muitos deles marcados física e
psicologicamente pelos horrores coloniais. Portugal, país outrora preso à
imobilidade do Estado Novo, encontrava-se agora à beira de um precipício social
e político: pairava no ar o aroma inebriante da liberdade, mas também a
incerteza do que fazer com ela.
As ruas enchiam-se
de gente. Homens, mulheres, jovens e crianças, todos, ou quase todos, queriam
sentir a vitória da liberdade recém-conquistada. Recordo-me da Avenida da
Liberdade e do Rossio inundados por multidões, slogans apaixonados estampados
em cartazes improvisados, punhos erguidos e cravos vermelhos. Era a primeira
vez, para muitos, que a palavra “manifestação” deixava de ser um sussurro
perigoso para se transformar num grito de pertença. Cantava-se "O povo
unido jamais será vencido", e, por instantes, acreditava-se realmente que
a utopia estava ao virar da esquina.
A atmosfera era de
celebração, mas também de explosão de emoções reprimidas. As pessoas
agitavam-se, falavam alto, discutiam política até à exaustão. Nas praças, nos
cafés, nos autocarros, a discussão era permanente – euforia quase infantil de
quem descobre o seu próprio poder social.
Contudo, a
exaltação não tardou a dar lugar a uma outra face da transição. O entusiasmo
pela liberdade abriu espaço à perseguição, por vezes cega, aos antigos agentes
do regime. Antigos membros da PIDE, funcionários administrativos, empresários
ligados ao regime eram publicamente expostos, enxovalhados, alguns humilhados
sem direito à defesa. Sentia-se uma ambivalência amarga nesse processo:
compreendia-se a vontade de justiça, mas a linha entre justiça e vingança
esbateu-se perigosamente. O "bom povo português", tantas vezes
apático sob a ditadura, parecia agora em busca de alvos para descarregar
décadas de frustração.
Também os chamados
“ricos” foram alvo de desconfiança. Havia uma suspeição generalizada sobre quem
tinha posses, como se a riqueza fosse sempre sinal de conivência com o regime
deposto. Lembro-me de ver portas marcadas, rumores de expropriações, jornais
populares a agitarem histórias de corrupção. Alguns inocentes foram envolvidos
neste turbilhão, outros nem tanto. A justiça popular era apressada e nem sempre
justa.
O que mais me
impressionou neste período foi a velocidade estonteante das mudanças. Portugal
passou, num ápice, de uma sociedade resignada e temerosa para uma outra onde
tudo era discutido e contestado. O silêncio cúmplice que pairava nas famílias e
nos locais de trabalho foi substituído por debates inflamados e, por vezes,
pela intolerância ao contraditório. Senti que, para muitos, a liberdade era
confundida com licença para os excessos. O país parecia querer recuperar, em
meses, décadas perdidas de participação cívica.
Multiplicaram-se os
sindicatos, as comissões de trabalhadores, as assembleias de bairro; surgiam
jornais e panfletos a cada esquina. O entusiasmo trouxe vitalidade à vida
pública, mas também alguma ingenuidade. Assistia-se a uma corrida para ocupar
cargos e usufruir de pequenas parcelas de poder recém-descoberto, nem sempre
com sentido de responsabilidade ou de justiça.
Nesse caldo
fervilhante, apareceram também os oportunistas: os ‘xicos-espertos’ que
souberam ler melhor do que ninguém a vontade de mudança das massas. Havia
líderes carismáticos, mas também manipuladores hábeis, prontos a transformar o
fervor popular em capital político próprio. Muitos dos “heróis” da revolução
revelaram-se tão humanos e falíveis como os antigos dirigentes.
Vi vizinhos
transformarem-se em acusadores implacáveis, antigos amigos tornarem-se
estranhos de um dia para o outro. A ingenuidade coletiva, alimentada pela
esperança, tornou-se terreno fértil para promessas fáceis e soluções
simplistas. Tínhamos, finalmente, voz, mas nem sempre sabíamos como usá-la.
Envolvido por esta
atmosfera de entusiasmo e desorientação, procurei o meu lugar num novo Portugal
que se reinventava. Sentia orgulho por pertencer a uma geração que ousou sonhar
com um país diferente, mas também tristeza ao ver amigos divididos por ideologias,
famílias desavindas por escolhas políticas. Se por um lado a liberdade era uma
conquista inegociável, por outro, ela vinha carregada de responsabilidades para
as quais nem todos estavam preparados.
A política, tão
desejada, tornou-se rapidamente um campo minado de rivalidades e decepções.
Aprendi a desconfiar do excesso de certezas, a valorizar o diálogo e a
pluralidade, e a perceber que as grandes mudanças raramente são lineares ou
justas para todos. Em cada esquina, em cada olhar, sentia-se a ansiedade de um
povo que desejava tudo e receava perder tudo novamente.
O pós-25 de Abril
representou, sem dúvida, um salto gigantesco na história portuguesa. Mas a
euforia inicial diluiu-se, e com o tempo foram-se revelando as fragilidades e
as desigualdades que a liberdade, por si só, não consegue sanar. Persistem até
hoje as feridas das injustiças, os ressentimentos de quem perdeu e as
frustrações dos que esperavam mais.
Como autor
participante e observador, retenho uma nostalgia agridoce: orgulho pelo caminho
percorrido, mas também uma consciência crítica dos riscos da memória seletiva e
das tentações simplistas. A liberdade conquistada é, acima de tudo, um processo
inacabado e talvez o maior legado desse tempo seja a responsabilidade de nunca
a tomarmos por garantida.
José Coelho

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