quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Memórias de quando foi conquistada a Liberdade

Foto Maria Coelho

O ano de 1974 marcou um ponto de viragem irreversível na história recente de Portugal. O regresso da guerra associado à Revolução dos Cravos, trouxe um fluxo de jovens soldados e famílias desmembradas, muitos deles marcados física e psicologicamente pelos horrores coloniais. Portugal, país outrora preso à imobilidade do Estado Novo, encontrava-se agora à beira de um precipício social e político: pairava no ar o aroma inebriante da liberdade, mas também a incerteza do que fazer com ela.

As ruas enchiam-se de gente. Homens, mulheres, jovens e crianças, todos, ou quase todos, queriam sentir a vitória da liberdade recém-conquistada. Recordo-me da Avenida da Liberdade e do Rossio inundados por multidões, slogans apaixonados estampados em cartazes improvisados, punhos erguidos e cravos vermelhos. Era a primeira vez, para muitos, que a palavra “manifestação” deixava de ser um sussurro perigoso para se transformar num grito de pertença. Cantava-se "O povo unido jamais será vencido", e, por instantes, acreditava-se realmente que a utopia estava ao virar da esquina.

A atmosfera era de celebração, mas também de explosão de emoções reprimidas. As pessoas agitavam-se, falavam alto, discutiam política até à exaustão. Nas praças, nos cafés, nos autocarros, a discussão era permanente – euforia quase infantil de quem descobre o seu próprio poder social.

Contudo, a exaltação não tardou a dar lugar a uma outra face da transição. O entusiasmo pela liberdade abriu espaço à perseguição, por vezes cega, aos antigos agentes do regime. Antigos membros da PIDE, funcionários administrativos, empresários ligados ao regime eram publicamente expostos, enxovalhados, alguns humilhados sem direito à defesa. Sentia-se uma ambivalência amarga nesse processo: compreendia-se a vontade de justiça, mas a linha entre justiça e vingança esbateu-se perigosamente. O "bom povo português", tantas vezes apático sob a ditadura, parecia agora em busca de alvos para descarregar décadas de frustração.

Também os chamados “ricos” foram alvo de desconfiança. Havia uma suspeição generalizada sobre quem tinha posses, como se a riqueza fosse sempre sinal de conivência com o regime deposto. Lembro-me de ver portas marcadas, rumores de expropriações, jornais populares a agitarem histórias de corrupção. Alguns inocentes foram envolvidos neste turbilhão, outros nem tanto. A justiça popular era apressada e nem sempre justa.

O que mais me impressionou neste período foi a velocidade estonteante das mudanças. Portugal passou, num ápice, de uma sociedade resignada e temerosa para uma outra onde tudo era discutido e contestado. O silêncio cúmplice que pairava nas famílias e nos locais de trabalho foi substituído por debates inflamados e, por vezes, pela intolerância ao contraditório. Senti que, para muitos, a liberdade era confundida com licença para os excessos. O país parecia querer recuperar, em meses, décadas perdidas de participação cívica.

Multiplicaram-se os sindicatos, as comissões de trabalhadores, as assembleias de bairro; surgiam jornais e panfletos a cada esquina. O entusiasmo trouxe vitalidade à vida pública, mas também alguma ingenuidade. Assistia-se a uma corrida para ocupar cargos e usufruir de pequenas parcelas de poder recém-descoberto, nem sempre com sentido de responsabilidade ou de justiça.

Nesse caldo fervilhante, apareceram também os oportunistas: os ‘xicos-espertos’ que souberam ler melhor do que ninguém a vontade de mudança das massas. Havia líderes carismáticos, mas também manipuladores hábeis, prontos a transformar o fervor popular em capital político próprio. Muitos dos “heróis” da revolução revelaram-se tão humanos e falíveis como os antigos dirigentes.

Vi vizinhos transformarem-se em acusadores implacáveis, antigos amigos tornarem-se estranhos de um dia para o outro. A ingenuidade coletiva, alimentada pela esperança, tornou-se terreno fértil para promessas fáceis e soluções simplistas. Tínhamos, finalmente, voz, mas nem sempre sabíamos como usá-la.

Envolvido por esta atmosfera de entusiasmo e desorientação, procurei o meu lugar num novo Portugal que se reinventava. Sentia orgulho por pertencer a uma geração que ousou sonhar com um país diferente, mas também tristeza ao ver amigos divididos por ideologias, famílias desavindas por escolhas políticas. Se por um lado a liberdade era uma conquista inegociável, por outro, ela vinha carregada de responsabilidades para as quais nem todos estavam preparados.

A política, tão desejada, tornou-se rapidamente um campo minado de rivalidades e decepções. Aprendi a desconfiar do excesso de certezas, a valorizar o diálogo e a pluralidade, e a perceber que as grandes mudanças raramente são lineares ou justas para todos. Em cada esquina, em cada olhar, sentia-se a ansiedade de um povo que desejava tudo e receava perder tudo novamente.

O pós-25 de Abril representou, sem dúvida, um salto gigantesco na história portuguesa. Mas a euforia inicial diluiu-se, e com o tempo foram-se revelando as fragilidades e as desigualdades que a liberdade, por si só, não consegue sanar. Persistem até hoje as feridas das injustiças, os ressentimentos de quem perdeu e as frustrações dos que esperavam mais.

Como autor participante e observador, retenho uma nostalgia agridoce: orgulho pelo caminho percorrido, mas também uma consciência crítica dos riscos da memória seletiva e das tentações simplistas. A liberdade conquistada é, acima de tudo, um processo inacabado e talvez o maior legado desse tempo seja a responsabilidade de nunca a tomarmos por garantida.

José Coelho

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