Caminho já menos pelos lugares ermos da minha freguesia que tanto gostava de frequentar por ser lá que a natureza continua a manter o seu mais elevado grau de pureza e beleza, mas onde também não passa já ninguém durante meses, anos até, não sendo por isso seguro nem recomendável andar por lá sozinho, a saltar paredes, a subir e descer pedras, a furar mato.
Um pé mal posto, uma queda imprevista e quem nos acode se, mesmo com o telemóvel no bolso, não chega lá a cobertura de nenhuma rede móvel de telecomunicações?
Dizia a minha prudente mãe que "à má hora, não ladram cães", o que quer dizer que as coisas ruins nunca avisam antes de acontecer e por isso vale mais prevenir.
Mas sinto saudades dos ciclópicos amontoados graníticos que se sucedem uns após outros até à linha do horizonte. Dos montados de sobro, azinho e carvalhos centenários, das giestas maiores que nós que tantas vezes me acolheram no seu cúmplice silêncio e atenuaram desassossegos.
São esses lugares lindos e sossegados o bálsamo reparador para qualquer ferida da alma, porque as curam com o sussurro da brisa, o marulhar da água dos regatos, o canto das rolas e do cuco, ou com o trinar afinado dos rouxinóis que desde que me conheço ouço pelas orlas frescas de ribeiros e fontes.
A vida tem princípio e fim. Sei, assumo, tenho serena consciência que o meu tempo, agilidade, força, energia e capacidades estão a diminuir cada dia. Não fui tão feliz quanto pensei que seria, mas fui o suficiente para sentir que valeu a pena ter nascido.
Como qualquer um de vós, tive bom e mau. Como toda a gente ri quando fui feliz e chorei quando algo ou alguém me tratou mal. Como (quase) toda a gente tentei incansavelmente não prejudicar ninguém, não invejar o que os outros tinham e eu não podia ter, ajudar em tudo o que esteve ao meu alcance a quem me pediu ajuda e muitas vezes voluntariamente.
Ajudei até quem não merecia nem nunca mereceu. Mas como essas pessoas não traziam escrito na testa que não prestavam, agi de boa-fé e não me arrependo disso, porque o mal nunca esteve em mim.
Escrevi propositadamente entre parêntesis (quase) porque sempre houve e continua a haver pessoas más que só se sentem felizes a infernizar a vida de outras, por serem invejosas, mentirosas, vigaristas e capazes de ofender e maltratar até a própria mãe.
E porque sou humano, também errei. Tantas vezes! Mas com toda a certeza nunca com intenção deliberada de prejudicar, ou maltratar fosse quem fosse, pedindo desculpa sempre que necessário, assim como tentei emendar os erros que foi possível reparar.
Resumindo, tive, vivi, aceitei e agradeci, tudo o que me foi concedido porque nunca deixei de sonhar e lutar por alcançar mais e melhor. Não terá sido porventura tudo aquilo que desejava e precisava ter, mas foi mesmo assim suficiente para olhar hoje para trás e com absoluta honestidade dizer:
- Obrigado, Vida.
José Coelho
*Foto Pedro Coelho