A vida militar é frequentemente marcada por desafios, distância da família e uma rotina exigente que testa os limites emocionais e físicos de quem decide segui-la. Este relato pretende testemunhar uma história verídica de coragem e vulnerabilidade onde um simples conselho transformou o destino de um guarda que há mais de três anos buscava reunir a sua família.
Após abrir o seu coração a um camarada mais experiente, o protagonista recebeu um conselho sincero: recorrer ao comandante da companhia, homem conhecido como justo e bondoso. Esse conselho, longe de ser apenas uma sugestão casual, germinou uma esperança palpável de mudança, impulsionando o guarda novato a agir.
Tomado pela ansiedade e necessidade de estar mais próximo da sua família, enfrentou uma noite mal dormida e no dia seguinte decidiu seguir o conselho. Com as pernas trémulas subiu a escadaria até ao gabinete do comando onde o ambiente organizado e acolhedor do espaço transmitia tranquilidade e respeito. Ao ser atendido pelo comandante sentiu-se, pela primeira vez em meses, tratado como um ser humano, livre da necessidade de autodefesa constante.
Com sinceridade expôs ao comandante sua situação: a transferência pendente para o posto de Castelo de Vide, a casa já sinalizada para alugar, o desejo de reunir a família que vivia separada há demasiado tempo e a certeza de que sua mudança não prejudicaria outros colegas. A emoção era tanta que uma lágrima escapou sem qualquer fingimento, revelando o estado de espírito de quem carregava, há anos, o fardo da separação e da incerteza.
O comandante, sereno e compreensivo, ouviu atentamente todo o relato. Sem surpresas, demonstrou empatia e prontidão para ajudar. Solicitou a pasta das transferências, analisou os documentos e, com palavras de conforto, garantiu que faria o possível para atender o pedido. O soldado saiu do gabinete tomado por um estranho sossego, sentindo que finalmente algo estava a mudar para melhor.
O tempo passou e em apenas uma semana, foi chamado novamente ao gabinete do comandante. Discreto, não comentara com ninguém sobre sua ida anterior, evitando especulações. Ao ser recebido, ouviu as palavras tão esperadas: a transferência estava aprovada e ele deveria apresentar-se em Castelo de Vide no dia um de novembro. Dali a dois dias apenas. A notícia foi dada com a serenidade típica de quem sabe a importância de gestos singelos na vida de alguém.
Mais do que a simples história de um pedido e de uma resposta, esta narrativa pretende ser o testemunho de como a humanidade, a empatia e a generosidade podem transformar a jornada dura de um militar. O camarada que aconselhou, o comandante que escutou e agiu, todos representam figuras fundamentais, anjos verdadeiros que surgem para suavizar o caminho de quem luta para manter os vínculos afetivos, mesmo no meio das exigências do serviço.
O seu relato é penhor autêntico da mais profunda gratidão e saudade por aqueles que nos seus gestos simples e altruístas deixam marcas profundas no coração de quem ajudam. Assim se celebra o valor da solidariedade e da esperança que persistem mesmo nos ambientes mais rígidos e desafiantes.
Mais do que dois seres humanos altruístas, o comandante e o guarda mais antigo foram dois extraordinários amigos. Embora não se encontrem já entre nós, a sua memória nunca será esquecida.
O peticionário e guarda “maçarico” era eu.
* Foto Estúdio Borda d'Água
em Portalegre no ano 1979
