segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O Portugal da identidade rural


Há um Portugal que raramente faz manchete, que não aparece nos postais ilustrados, mas que, ainda assim, resiste de forma silenciosa e autêntica. É o Portugal dos humildes, do interior, do campo, onde a verdadeira essência do país se mantém viva, preservada longe do ritmo frenético das cidades.

Neste Portugal, a vida desenrola-se ao redor do lume da lareira, do fumo que sobe das chaminés e do cheiro a terra molhada. Aqui, a comida é feita com tempo e alma: o pão escuro, cozido em forno de lenha, serve de base para sardinhas assadas, comidas à mão, e o vinho de talha é servido em jarro, partilhado entre conversas e risos.

As festas são marcadas por tradições ancestrais: a matança do porco nos Santos, o borrego ou cabrito na Páscoa, as danças e cantares populares que passam de geração em geração.

Durante décadas, este Portugal rural abasteceu as despensas e alimentou o país urbano, aquele “gémeo” mais moderno e sofisticado, mas por vezes entediado pela rotina de empregos repetitivos, pelo pára-arranca dos semáforos e pelo stress dos engarrafamentos.

O contraste é evidente: de um lado, a monotonia da cidade; do outro, a autenticidade do campo.

No interior, cada aldeia tem a sua música, o seu ritmo próprio, que embala as horas e ameniza as tristezas e cansaços de um povo que, apesar de tudo, nunca perdeu as suas raízes. Esta música é, verdadeiramente, a nossa, aquela que nos liga ao passado, às histórias contadas à lareira e às memórias partilhadas à volta da mesa.

É frequente pensar-se que o melhor está no “outro” Portugal, o das cidades, onde aparentemente “tudo” acontece. Mas, na realidade, muitos esquecem que, ao abandonar as suas origens, perdem também o mais precioso: a capacidade de reconhecer quem são e de onde vieram.

Não há orgulho maior do que esse, o de saber valorizar e respeitar as raízes, as tradições e a genuinidade do nosso povo.

Celebrar o Portugal rural é, afinal, celebrar o que temos de mais autêntico. É reconhecer que, mesmo num mundo que avança a passos largos, há valores e práticas que merecem ser preservados, porque são eles que nos definem enquanto povo e nos dão sentido de pertença.

Que nunca deixemos de olhar para este Portugal com o respeito e o carinho que merece.

José Coelho

Foto: A Beirã no Séc. XX