Há um Portugal que raramente
faz manchete, que não aparece nos postais ilustrados, mas que, ainda assim,
resiste de forma silenciosa e autêntica. É o Portugal dos humildes, do
interior, do campo, onde a verdadeira essência do país se mantém viva, preservada
longe do ritmo frenético das cidades.
Neste Portugal, a vida
desenrola-se ao redor do lume da lareira, do fumo que sobe das chaminés e do
cheiro a terra molhada. Aqui, a comida é feita com tempo e alma: o pão escuro,
cozido em forno de lenha, serve de base para sardinhas assadas, comidas à mão,
e o vinho de talha é servido em jarro, partilhado entre conversas e risos.
As festas são marcadas por
tradições ancestrais: a matança do porco nos Santos, o borrego ou cabrito na
Páscoa, as danças e cantares populares que passam de geração em geração.
Durante décadas, este Portugal
rural abasteceu as despensas e alimentou o país urbano, aquele “gémeo” mais
moderno e sofisticado, mas por vezes entediado pela rotina de empregos
repetitivos, pelo pára-arranca dos semáforos e pelo stress dos engarrafamentos.
O contraste é evidente: de um
lado, a monotonia da cidade; do outro, a autenticidade do campo.
No interior, cada aldeia tem a
sua música, o seu ritmo próprio, que embala as horas e ameniza as tristezas e
cansaços de um povo que, apesar de tudo, nunca perdeu as suas raízes. Esta
música é, verdadeiramente, a nossa, aquela que nos liga ao passado, às
histórias contadas à lareira e às memórias partilhadas à volta da mesa.
É frequente pensar-se que o
melhor está no “outro” Portugal, o das cidades, onde aparentemente “tudo”
acontece. Mas, na realidade, muitos esquecem que, ao abandonar as suas origens,
perdem também o mais precioso: a capacidade de reconhecer quem são e de onde
vieram.
Não há orgulho maior do que
esse, o de saber valorizar e respeitar as raízes, as tradições e a genuinidade
do nosso povo.
Celebrar o Portugal rural é,
afinal, celebrar o que temos de mais autêntico. É reconhecer que, mesmo num
mundo que avança a passos largos, há valores e práticas que merecem ser
preservados, porque são eles que nos definem enquanto povo e nos dão sentido de
pertença.
Que nunca deixemos de olhar
para este Portugal com o respeito e o carinho que merece.
José Coelho
