segunda-feira, 6 de outubro de 2025

O hábito faz o monge

Ainda não foi acesa mas já está pronta para iniciar a sua função

Feita de encomenda e por medida em granito branco primorosamente esculpido por sábias mãos de uma célebre família de canteiros de Gáfete e tenha embora um ar algo mais fino, é tão eficiente como a sua rústica antecessora. E, tal como ela, nunca expeliu um bafo de fumo sequer, para fora da sua zona de combustão, por mais insignificante que fosse.

Para certificá-lo basta observar as paredes da sala de uma brancura imaculada que seria impossível assim permanecerem se houvesse fugas indesejadas, por mínimas que fossem.

Herdei dos meus pais e avós este gosto pelo lume de chão ao vivo e ao natural. E estou convicto que os meus dois filhos o herdaram também, pois tal como o pai não o trocam por quaisquer outros aquecimentos mais modernos e menos geradores de cinzas ou sobrantes.

O hábito faz o monge? Talvez. O meu avô José (de quem herdei o nome) não dispensava sentar-se ao seu lume durante todo o outono e inverno, entrando até muitas vezes pela primavera dentro. E à minha avó Amélia, nunca lhe conheci fogão ou fogareiro, fosse a carvão, a petróleo ou a gás. Tudo o que cozinhava (e que comidinhas tão boas fazia) fosse inverno ou verão, era sempre e só em lume de chão a lenha, numa sertã ou nas panelas e caçarolas de barro.

Por seu lado, mal se mudou para a nossa casa aos 80 anos para viver conosco até ao fim da sua vida, o avô Faustino, pai do meu pai (não conheci a minha avó Adelina porque faleceu antes de eu a poder conhecer) imediatamente marcou, como território seu, o canto direito da nossa chaminé com o seu banquinho de madeira, já que o outro, o esquerdo, foi toda a vida o do dono da casa meu saudoso pai.

Um de um lado, outro do outro, não causavam, porém, qualquer problema, porque o espaço entre os dois era mais que suficiente para lá cabermos ainda todos, já que a chaminé ia de canto a canto da cozinha, tendo sido deixado apenas espaço para uma pequena despensa. Era aquela a zona vip da casa. Ali cozinhava a minha mãe todas as nossas refeições e ali se reunia a família todas as noites para se aquecer e confraternizar num harmonioso conforto e paz, geradores de uma felicidade genuína.

Assim aprendemos que para ser feliz não era preciso muito.

Quando cada um de nós, os quatro irmãos, constituímos as nossas famílias pelo matrimónio, levámos conosco, obviamente, aqueles hábitos simples e saudáveis. E mais tarde, os nossos filhos, também. Eu não troco o lume da lareira por nenhum outro aquecimento. Há lá melhor calorzinho que este? Assim que a gente entra em casa vindo do frio da rua é como que entra para o céu. Somos acolhidos por um ambiente tão confortável e naturalmente aquecido, que é capaz de revigorar qualquer espírito por mais gelado que venha.

Os meus filhos, idem. O Pedro com a esposa e a filha vivem num agradável apartamento na cidade, mas têm também na sala uma excelente lareira aberta com lume de chão não muito diferente da minha, que acendem diariamente durante todo o inverno. E o filho Manel idem, pese embora a dele seja fechada com estufa de vidro, daquelas que aproveita o calor da combustão e o ventila para a sala e para os quartos no primeiro andar, aquecendo assim toda a casa.

O lume aceso na lareira e a chaminé da casa a fumegar ao vento é algo que habita a minha memória e me transporta inevitavelmente ao tempo e aos costumes com que me criei, cresci e fiz homem porque todos os lares habitados eram aquecidos com lareiras acesas, cujo odor se difundia pela aldeia inteira fervilhante de gente e vida.

Cheirava a famílias, quase todas numerosas.

Embora essa realidade aos poucos se tenha praticamente extinguido, significa para mim, entre muitas outras coisas, o que vivi. A saudade imensa de um tempo que se foi. Dos vizinhos, amigos e conterrâneos que fizeram parte do que hoje sou. E, mais do que qualquer outro sentimento, significa inevitavelmente a minha família que já partiu.

Infelizmente já são muitos mais os que faltam do que os que ainda restamos.

Quando olho para o fumo branco que sai da minha chaminé em cada inverno, peço-lhe sempre que suba até conseguir chegar ao céu e lhes entregue a minha saudade junto com o infinito amor que continuo a sentir por todos eles.

José Coelho - Texto e foto