terça-feira, 21 de outubro de 2025

Ave rara


Na alvorada da década de 50, o tempo em que cheguei ao mundo, a vida era marcada por rotinas árduas e tradições profundamente enraizadas no interior de Portugal. Mal despontava o dia e já a minha mãe se levantava bem antes do nascer do sol, para acompanhar o meu pai na labuta agrícola.
A sementeira, a monda, a rega e colheita de feijões, pimentos, batatas, cebolas, tomates, melancias e melões, ocupavam a maior parte do seu tempo, fosse nas várzeas do Vale do Cano, da Nave, do Matinho ou das Amendoeiras. O meu pai, reconhecidamente hortelão-mor durante quase toda a sua vida, era respeitado pelo seu saber e dedicação à terra.
A minha irmã Adelina já crescidinha por ser quatro anos mais velha do que eu acompanhava-os frequentemente nessas tarefas. Já eu, por ser ainda muito pequeno, eu era deixado aos cuidados da “mestra” nome dado, naquele tempo, às senhoras que acolhiam em sua casa os filhos dos trabalhadores rurais, transformando a sua casa num verdadeiro infantário, mediante uma modesta contribuição mensal.
Recordo com carinho a senhora Vicência Olivença, mestra que me ensinou as letras e os números. Para nos manter ocupados e sossegados dava-nos uma ardósia e um lápis de pedra para copiarmos o abecedário, os algarismos e a tabuada. Era um ensino simples, prático e eficaz, das primeiras noções da escola primária, que rapidamente absorvi.
Aos cinco anos já sabia ler, escrever e contar, o que me permitiu, ao ingressar em outubro de 1958 na Escola Primária Masculina da Beirã, ser colocado pela senhora professora D. Clarisse Quezada diretamente na fila da 2.ª classe ao aperceber-se do avançado estado dos meus conhecimentos básicos.
Hoje algo assim seria impensável. Naquele tempo, porém, a figura da professora era respeitada e obedecida por toda a comunidade, tal como o senhor padre e o senhor regedor da aldeia. Eram autoridades incontestadas e a sua palavra vigorava como lei.
Foi um ano estranho e desafiante: aprendi toda a matéria da 2.ª classe logo no primeiro ano, mas por exigência do sistema, nas passagens de ano em junho, tive de realizar a prova que me correspondia da 1.ª para a 2.ª classe.
Ainda conservo esses documentos religiosamente guardados pela minha mãe como um verdadeiro tesouro que encontrei quando regressei definitivamente à casa de família já minha por direito, mas mantida em usufruto comum enquanto os pais viveram.
Aquele percurso peculiar continuou durante todo o meu Ensino Básico Elementar. Era assim que se chamava nesse tempo ao percurso escolar da primeira à quarta classe.
Após as férias grandes desse primeiro ano regressei à escola e fui novamente colocado adiantado, desta feita na fila da 3.ª classe. Assim andei sempre um ano à frente do calendário escolar que me pertencia, embora nas provas de passagem oficiais tivesse que marcasse passo, repetindo matérias já dominadas, o que em vez de me ajudar me prejudicou especialmente na 4.ª classe em que tive de permanecer depois dois anos.
O reconhecimento das minhas capacidades intelectuais na altura afinal de pouco me valeu, já que não podia ser submetido ao exame final antes do tempo regulamentar independentemente dos conhecimentos adquiridos. Enquanto os meus colegas rumaram a Marvão para fazerem o exame da quarta classe, eu fiquei a repetir inutilmente tudo o que já sabia mais um ano.
Talvez por ser o único filho varão dos quatro irmãos, desde cedo me senti uma “ave rara”. Em 1969 quando muitos jovens fugiam à tropa com receio da guerra eu ofereci-me voluntário com apenas 17 anos. Não fazia obviamente a mínima ideia do que era a vida militar, a guerra ou o mundo para além da minha terra, mas sabia que aquele era um percurso que teria obrigatoriamente de trilhar.
Por isso meti os pés a caminho três anos antes do estipulado nas leis do recenseamento militar.
Fui. E por decisão do destino, da sorte ou de algo maior do que nós safei-me, ao contrário daqueles infelizes camaradas que nunca esquecerei e lá deixaram a vida.
Hoje ao revisitar tantíssimas memórias – antes que o Alzheimer ou sucedâneo seu apague o que resta delas – dou por mim a refletir sobre os caminhos trilhados e os desígnios da dita cuja sorte.
Em sonhos ouço a meiga e doce voz da minha mãe quando ela me chamava:
- O mê Zéi…
Quando acordo fico a cismar:
Para saberes se a sorte existe ou não, "mê Zéi", só te faltou mesmo seres rico...

José Coelho