sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Bom fim de semana


Assim como também bom Dia de Todos-os-Santos, pessoal.

Cuidem-se, mimem-se, sejam felizes!

* 31. 10. 2025

O último tocador dos sinos

Foto Pedro Coelho

Desde 1958 que o Senhor do Sacrário e a Senhora do Carmo lá do seu altar, me veem cirandar por ali a seus pés. Tinha apenas seis anos quando o reverendo pároco Joaquim Caetano me escolheu para seu acólito nesta igreja da Beirã.
Naquele tempo, gaiatos éramos às dezenas na aldeia, mas o ilustre clérigo preferiu a minha insignificante figura, o que para os meus pais foi uma honra, tendo em conta a enorme possibilidade de escolha entre tão diferenciada oferta, muitos dos quais sempre mais bem vestidos e aperaltados do que eu, por serem filhos de famílias abastadas ou de funcionários públicos.
O sacristão que eu fui substituir já começava a ser crescido e queria deixar essas funções para se dedicar a outras mais próprias da sua idade. Chamava-se António Sarzedas "o sapateiro", alcunha por que todos o conhecíamos.
Encarregou-o o padre de me ensinar as regras e procedimentos do altar, desde acolitá-lo na eucaristia, ao responder em latim às suas locuções "et cum spiritu tuo" quando ele pronunciava "dominus vobiscum" e muitas outras lenga-lengas das quais eu não percebia patavina mas aprendi a decorar na ponta da língua.
Interessante também foi ter de aprender a tocar os sinos. Para a missa, para os funerais, casamentos e batizados, também para as procissões. Cada toque tinha o seu ritmo próprio.
Tudo assumi sem dificuldades de maior, de tal modo que ainda hoje me recordo de muitas partes da missa em latim, e até do Tantum Ergo Sacramentum completo para a adoração do Santíssimo.
E como se isso não fosse já quase uma licenciatura, sou também o último tocador de sinos com carteira profissional nesta paróquia e arredores.
Exerci então o "oficio" de sacristão até terminar a escolaridade obrigatória em julho de 1962, ano em que fiz o exame da 4ª classe e o meu pai me arranjou um patrão para, logo no dia seguinte, eu ir trabalhar. Assim deixei de poder ir à missa e muito menos acolitá-la, mas sempre que podia lá ia fazer uma visitinha ao Jesus do Sacrário e à Senhora do Carmo porque sempre "senti" que eles me ajudavam e protegiam.
Essa proteção foi muito mais sentida quando fui para a guerra em Angola durante vinte e sete terríveis meses mas regressei a casa sem um arranhão, ao contrário de um grande número de camaradas que foram comigo, mas não regressaram nem sãos, nem salvos.
E não só.
Todo o meu percurso de vida foi um espelho da bondade do Divino e da ajuda da Senhora do Carmo. Assim creio e o afirmo sem tiques de beatice, apenas pela mais inequívoca e determinada convicção. Eu é que sei os apertos por que passei, as aflições e angústias que me atormentaram e a forma milagrosa como consegui ultrapassar ou vencer cada uma delas.
É muito fácil as pessoas opinarem sobre o que não sabem, denegrirem o seu semelhante e darem palpites, mas quem tem as dores é quem as sente. O resto são tretas, muitas vezes mal-intencionadas, vindas de quem não tem escrúpulos.
Por tudo isso e muito mais, tão depressa estabeleci residência definitiva na Beirã, imediatamente regressei com carácter permanente ao meu desempenho na igreja e paróquia onde ele seja necessário e esteja dentro do meu alcance. E lá continuo ainda, desde novembro de 1993.
Faço-o por gratidão e dedicação, mas, sobretudo, por espírito de missão.
Somos hoje já tão poucos os paroquianos que cruzamos a porta da igreja para nos aproximarmos daquele que há mais de 70 anos é o mais ilustre habitante da aldeia dentro do Sacrário, o Santíssimo Sacramento, que há celebrações em que os participantes se contam pelos dedos de uma só mão.
Sei, tenho plena consciência, que não estará muito longe o dia em que o Bispo da Diocese irá decidir dessacralizar a igreja da Beirã que ficará a ser, a partir daí, apenas mais uma bonita capela sem a presença do Santíssimo, como há já tantas.
E vai doer-me, como me dói cada vez que mais uma casa fica sem os vizinhos queridos, para ser transformada num Alojamento Local a tentar encher as ruas de turistas.
Para mim, pessoalmente, uma igreja sem o Senhor no Sacrário é uma casa vazia, mesmo que esteja a abarrotar de gente.
Não sou, como escrevi lá atrás, só o único tocador “profissional” dos sinos nestes arredores, como sou também já o único salmista que se prepara em casa durante a semana para subir à Mesa da Palavra a entoar os Salmos que solenizam cada Eucaristia.
Não sou cantor, nem o faço para me exibir. Faço-o por dever de consciência, por amor à minha igreja e para que, enquanto seja possível, a nossa Eucaristia semanal continue a ser um momento de reflexão e de paz interior para cada participante na mesma.
Até quando? Até que Deus queira.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Tudo o que escrevo, certifico


Tantas vezes eu já escrevi sobre estes lugares nas minhas crónicas de amor a este chão sobre o qual cresci e me fiz gente.

Uma velhinha nora de tração animal e ao seu lado o tanque que juntava a água diligentemente extraída durante horas pela paciente besta de olhos vendados.

Dali se regava a grande horta que se estendia ao longo de toda aquela várzea nas margens do Ribeiro da Cavalinha e tanta gente alimentou durante décadas.

Poucas ou quase nenhumas das muitas árvores de fruto que por aqui frutificavam, já morreram.

Na zona de sequeiro havia amendoeiras e na zona de regadio macieiras, pereiras, abrunheiros e muitas outras que pereceram uma a uma pela idade e o abandono.

Lá atrás vislumbra-se, entre as giestas e o arvoredo, o telhado e anexos da Estação Ferroviária Fronteiriça de Marvão-Beirã que deu vida a esta aldeia durante mais de 130 anos.

Tudo o que escrevo gosto de certificar assim, com imagens reais. Estas fi-las ontem na caminhada do entardecer. Abundam por aqui muitos outros locais idênticos.

Texto e foto

Moldado pelos afetos

Foto Maria Coelho

Sou, sempre fui profundamente arreigado aos afetos. Os laços que construí ao longo da vida, fossem eles familiares ou de amizade, cimentaram solidamente os alicerces do meu caminho. Cresci envolto pelo afeto da família, pelo carinho dos vizinhos e amizade dos conterrâneos.

Para mim o sentimento de pertença vai muito além do simples nascimento; é um sentir profundo pela freguesia, pelo concelho, pelo distrito, pela província e, acima de tudo, pelo país que me viu nascer, crescer e amadurecer.

O apego à minha aldeia é tão intenso que por vezes parece que o resto do mundo não existe. Ela é o meu refúgio, a minha referência, o lugar onde as memórias ganham vida e os sonhos se alimentam da simplicidade do campo.

Sinto-me igualmente ligado aos animais, às aves que enfeitam o céu, ao vento que sussurra nos campos, à chuva que abençoa a terra, ao sol que aquece o corpo e o espírito.

Também a natureza, no seu esplendor misterioso, foi sempre para mim fonte de inspiração, ensinando-me sobre humildade, resiliência e harmonia. Este afeto amplo estende-se por isso a tudo quanto me rodeia.

São poucas as exceções ao que abraço com genuíno entusiasmo e compreensão. Acredito que a capacidade de nos ligarmos ao próximo e ao ambiente é o que verdadeiramente nos humaniza e dá sentido ao nosso terreno percurso.

O berço humilde em que nasci e a família honrada que tive a ventura de receber das mãos de Deus moldaram-me nesta forma de ser e de estar. Foram eles que incutiram em mim o valor da honestidade, da gratidão e do respeito.

Essas são as razões pelas quais serei sempre grato. 

Agradeço pelo que sou e me foi dado viver, consciente de que a felicidade reside muitas vezes na simplicidade dos afetos e na riqueza dos pequenos gestos quotidianos.

E sigo fiel às minhas raízes, reconhecendo em cada pessoa, em cada animal, em cada elemento da natureza, uma razão para ser melhor e retribuir ao mundo um pouco do muito que recebi.

José Coelho

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Vidas vazias


Há olhares que não nos admiram, só nos medem. Há sorrisos que não cativam, apenas disfarçam. A inveja não é do que temos, mas do que somos e da luz que transportamos sem precisar apagar a de ninguém.

No início, perguntava-me: porque é que as pessoas são assim?

Mas hoje entendo que a inveja não é sobre mim, mas pelo vazio das suas próprias vidas que não conseguem preencher.

Não lhes guardo rancor.

Sigo o meu caminho com a alma leve, o coração inteiro e a certeza de que o que é verdadeiro não se altera pelo olhar alheio.

Foto Maria Coelho

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Gratidão


Caminho já menos pelos lugares ermos da minha freguesia que tanto gostava de frequentar por ser lá que a natureza continua a manter o seu mais elevado grau de pureza e beleza, mas onde também não passa já ninguém durante meses, anos até, não sendo por isso seguro nem recomendável andar por lá sozinho, a saltar paredes, a subir e descer pedras, a furar mato.

Um pé mal posto, uma queda imprevista e quem nos acode se, mesmo com o telemóvel no bolso, não chega lá a cobertura de nenhuma rede móvel de telecomunicações?

Dizia a minha prudente mãe que "à má hora, não ladram cães", o que quer dizer que as coisas ruins nunca avisam antes de acontecer e por isso vale mais prevenir.

Mas sinto saudades dos ciclópicos amontoados graníticos que se sucedem uns após outros até à linha do horizonte. Dos montados de sobro, azinho e carvalhos centenários, das giestas maiores que nós que tantas vezes me acolheram no seu cúmplice silêncio e atenuaram desassossegos.

São esses lugares lindos e sossegados o bálsamo reparador para qualquer ferida da alma, porque as curam com o sussurro da brisa, o marulhar da água dos regatos, o canto das rolas e do cuco, ou com o trinar afinado dos rouxinóis que desde que me conheço ouço pelas orlas frescas de ribeiros e fontes.

A vida tem princípio e fim. Sei, assumo, tenho serena consciência que o meu tempo, agilidade, força, energia e capacidades estão a diminuir cada dia. Não fui tão feliz quanto pensei que seria, mas fui o suficiente para sentir que valeu a pena ter nascido.

Como qualquer um de vós, tive bom e mau. Como toda a gente ri quando fui feliz e chorei quando algo ou alguém me tratou mal. Como (quase) toda a gente tentei incansavelmente não prejudicar ninguém, não invejar o que os outros tinham e eu não podia ter, ajudar em tudo o que esteve ao meu alcance a quem me pediu ajuda e muitas vezes voluntariamente.

Ajudei até quem não merecia nem nunca mereceu. Mas como essas pessoas não traziam escrito na testa que não prestavam, agi de boa-fé e não me arrependo disso, porque o mal nunca esteve em mim.

Escrevi propositadamente entre parêntesis (quase) porque sempre houve e continua a haver pessoas más que só se sentem felizes a infernizar a vida de outras, por serem invejosas, mentirosas, vigaristas e capazes de ofender e maltratar até a própria mãe.

E porque sou humano, também errei. Tantas vezes! Mas com toda a certeza nunca com intenção deliberada de prejudicar, ou maltratar fosse quem fosse, pedindo desculpa sempre que necessário, assim como tentei emendar os erros que foi possível reparar.

Resumindo, tive, vivi, aceitei e agradeci, tudo o que me foi concedido porque nunca deixei de sonhar e lutar por alcançar mais e melhor. Não terá sido porventura tudo aquilo que desejava e precisava ter, mas foi mesmo assim suficiente para olhar hoje para trás e com absoluta honestidade dizer:

- Obrigado, Vida.

José Coelho

*Foto Pedro Coelho

Porque a inveja não tem cura

Uma crónica sobre lealdade, presença e memória


Spike era apenas um cachorrinho de rua quando, sem aviso, apareceu nos caminhos silenciosos do Cemitério da Consolação, em São Paulo. Ninguém soube de onde veio aquele animal de olhos atentos e andar sereno, mas aos poucos tornou-se figura familiar entre os jazigos, como se fizesse parte daquele cenário desde sempre.
Os coveiros e funcionários foram os primeiros a notar: Spike circulava entre as sepulturas, acompanhando com discrição as famílias e visitantes que, imersos na dor ou na saudade, vinham prestar homenagens aos seus entes queridos. Em dias de enterro, era certo que o cão se aproximaria em silêncio, sentando-se perto do caixão ou, por vezes, deitando-se ao lado, como quem entende a gravidade do momento. Não pedia nada; oferecia apenas sua presença tranquila, um consolo mudo para quem chorava.
Com o passar do tempo, Spike ganhou fama de guardião do cemitério. Toda a gente o conhecia. Os trabalhadores deixavam-lhe comida e carinho; os visitantes, um afago ou palavras doces. Em cada canto das alamedas havia uma tigela de água, sinal de que ali residia alguém amado por todos. À noite, o cãozinho dormia junto à capela ou enrolado ao pé de um jazigo antigo, como se aquele lugar vasto e repleto de memórias fosse, de facto, o seu lar.
O ladrar de Spike ecoava entre os mausoléus, não como ameaça, mas como declaração de existência: ele era uma vida pulsando entre tantas histórias encerradas. A sua calma e lealdade tornaram-se lenda. Diziam que sentia as emoções humanas; que se aproximava de quem mais precisava, encostando o focinho com delicadeza nos joelhos de quem se ajoelhava em pranto. Outros juravam que, a cada dia, Spike escolhia um túmulo diferente para vigiar, num rodízio silencioso de guarda e afeto.
Os anos passaram e Spike envelheceu sob o olhar atento de todos os que já não podiam imaginar o cemitério sem sua presença. Mesmo cansado, continuava a rondar os mesmos caminhos, o olhar manso e fiel como sempre. Até que, num dia qualquer, não apareceu. A busca foi ansiosa, temendo-se o pior e, ao mesmo tempo, reconhecendo o ciclo natural da vida. Encontraram-no deitado sob a sombra de uma árvore, no seu lugar preferido, como quem escolhe onde quer descansar após uma longa vigília.
A notícia da sua morte emocionou todos: funcionários, visitantes, guias, curiosos. Comovidos, os trabalhadores solicitaram uma autorização especial para o enterrarem ali, entre aqueles a quem dedicara a sua silenciosa existência. O pedido foi aceite numa exceção rara e carregada de simbolismo. Assim se tornou Spike no único animal sepultado no Cemitério da Consolação. O seu túmulo, simples e discreto, guarda mais do que um corpo: guarda a memória de um companheiro que, sem palavras, ofereceu conforto, companhia e amor.
Hoje, quem passa pelo cemitério muitas vezes se detém diante da sepultura de Spike. Uns deixam flores, outros apenas um carinho na pedra fria. Há quem diga que, de vez em quando, um vento leve sopra diferente quando se passa por ali – como se o velho guardião fiel ao seu posto, continue a velar por memórias, dores e amores.
Spike, o cão do Cemitério da Consolação, prova que, por vezes, o maior conforto vem do silêncio e da presença. A sua história permanece viva, não apenas na pedra que marca o seu descanso, mas no coração de todos os que um dia foram tocados pela sua lealdade.

(Desconheço o autor deste texto, mas conheço muito bem e por experiência própria, a lealdade destes amigos únicos no mundo).
Imagem da net

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Envelhecer - Um caminho de coragem e aceitação


Envelhecer não é, de facto, tarefa fácil. É um caminho que exige de nós capacidade para abrandar o passo e ajustar o ritmo ao novo compasso do corpo e da mente. Envelhecer é, acima de tudo, um exercício de aceitação e coragem: aceitação para vestir as mudanças do corpo com dignidade e coragem para deixar para trás a vergonha, o preconceito e os medos que a passagem dos anos inevitavelmente impõe.
Aprender a envelhecer é compreender que a vida tem o seu ciclo natural. É saber soltar as mãos de quem precisa partir – seja por escolha ou por necessidade – e, ao mesmo tempo, abrir os braços para acolher aqueles que decidem ficar. É um processo de desapego profundo, mas carregado de força, pois cada despedida e cada permanência moldam silenciosamente o ser mais frágil em quem nos tornamos.
Há na maturidade um convite à solidão saudável: aprender a caminhar por conta própria, despertar em silêncio, resistir ao peso dos dias e enfrentar o olhar daquele homem ou mulher que nos observa agora do outro lado do espelho.
É aceitar, com serenidade, que tudo na vida tem um fim.
Os sonhos, os amores, até mesmo a própria existência.
De algum sofrimento que possa ter-nos causado permaneça apenas a certeza de havermos conseguido superá-lo. E dos erros que tivermos cometido, a convicção que muita coisa com eles aprendemos.
E das inevitáveis dificuldades quotidianas, guardemos só a lembrança do momento em que conseguimos vencê-las. Sintamos gratidão por cada ano de vida apesar de tudo o que tenha acontecido, porque importante mesmo foi que nos tornou mais resistentes, experientes e sábios.
Saber dizer adeus sem se ir embora, recordar sem se perder, chorar o que for preciso até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos, desejos e pequenas alegrias, são parte intrínseca deste processo.
Envelhecer é, portanto, entender que cada cicatriz e cada memória guardam a prova de uma vida vivida com intensidade, coragem e humanidade.
Não é um caminho fácil, mas é, sem dúvida, um caminho rico em significado e beleza, onde se aprende a valorizar o essencial, a acolher o tempo e a celebrar cada momento, mesmo os mais silenciosos.
Texto e foto

Voltar a casa (depois das tempestades da vida)


A beleza das paisagens da minha freguesia transportam-me, vezes sem conta, para um estado de paz que desconhecia, antes de abandonar os protetores muros da minha terra natal.
São quietude que não oprime – antes embala e cura.
Nela transporta o eco dos dias passados, das memórias de infância e contrasta, de forma quase cruel, com o ruído ensurdecedor que experimentei lá fora, para além dos vales e das serras que moldaram o meu olhar.
Quem viveu a turbulência do mundo, quem sentiu no rosto a poeira da guerra e escutou diariamente o pranto da perda, aprende a valorizar o que é simples e essencial. O "regresso a casa” assume, então, o peso de um renascimento: é refúgio, é abrigo, e, acima de tudo, é reencontro com a própria essência.
Aqui, longe do caos, o tempo tem outra cadência. Cada manhã é marcada pelo chilrear das aves, pelo tilintar dos chocalhos ao longe, pela brisa que atravessa os campos e abana suavemente a folhagem. Só neste silêncio se encontram essas melodias naturais.
As sonoridades do campo tecem uma harmonia onde não há cansaço – apenas consolo e conforto.
Aqui não há sirenes, gritos ou estrondos de explosões; há, em vez disso, o murmúrio doce do vento, o ladrar distante de um cão e o diálogo invisível entre as árvores e as nuvens.
Na rotina da aldeia, cada gesto é uma oração silenciosa pela continuidade da vida, pela esperança renovada após a tempestade. O silêncio rural é, para mim, profundamente meditativo. É neste espaço de sossego que reconstruo, dia após dia, aquilo que a dureza do mundo quase me levou.
A serenidade que me rodeia e a imobilidade aparente do tempo permitem-me revisitar as minhas dores e transformá-las em aprendizagem. Aqui, sinto-me perto do paraíso – não o paraíso idealizado, mas um lugar real, tangível, onde a alma finalmente descansa.
É silêncio que não significa ausência, mas presença: presença de tudo o que é bom, simples e verdadeiro. Depois de confrontar a violência, a miséria e a morte, o regresso ao campo é o reencontro com a vida. Cada som, cada cheiro, cada cor é uma promessa de que, apesar de tudo, a paz é possível.
E foi neste refúgio que reencontrei por fim, o sentimento absoluto de ter voltado para casa.
Texto e foto

domingo, 26 de outubro de 2025

Boa semana


Sê humano e íntegro, honra sempre a tua palavra, sê grato a quem te ajudou, correto com quem te relacionas
e honesto na tua vida.

Foto José Coelho

Geração a terminar


Somos da geração que nunca mais vai voltar. Uma geração marcada por pequenos rituais que hoje soam distantes, quase lendários, para quem não os viveu. Fomos meninos e meninas que iam à escola e regressavam a pé, mochila às costas e o mundo inteiro pela frente. A pressa era sempre para terminar os deveres de casa, não por obrigação, mas para ganhar tempo para aquilo que realmente importava: brincar na rua.
Éramos os donos das calçadas, das praças, dos recantos secretos entre prédios e árvores. O tempo livre era sinónimo de encontro, de liberdade para inventar brincadeiras e histórias que só faziam sentido dentro do nosso universo. O esconde-esconde tornava-se mais emocionante com a chegada do anoitecer, quando as sombras dançavam ao nosso redor e a imaginação corria solta.
Fomos a geração dos bolos de lama, feitos com mãos sujas de terra e corações cheios de criatividade. Aventurávamo-nos à beira dos lagos, colecionando memórias e momentos de pura felicidade. Os brinquedos de papel, recortados e coloridos com cuidado, nasciam das nossas próprias mãos.
Vivemos o início da era tecnológica, que experimentávamos com encanto. O walkman era um tesouro, a cassete VHS garantia de sessões de cinema em casa e a disquete era a promessa de guardar os nossos primeiros ficheiros. Tirávamos fotos com câmaras a rolo, esperávamos ansiosamente pela revelação e colávamos os melhores momentos em álbuns de recortes, eternizando amizades e aventuras.
Vimos o nosso pai de chave de fendas na mão para consertar a televisão, ajustar a antena e ensinar-nos que quase tudo se pode arranjar com um pouco de paciência. Tínhamos pais e avós e com eles aprendíamos o valor das pequenas conquistas do dia a dia.
À noite ríamos baixinho debaixo dos lençóis, esperando não sermos apanhados acordados. Éramos cúmplices de uma infância em que as regras se dobravam e os sonhos se multiplicavam, na certeza de que, no dia seguinte, a rua nos esperava de novo.
Somos uma geração que está a terminar, uma geração de lembranças partilhadas que viveu a transição entre o analógico e o digital, entre o toque e o clique. Uma geração irrepetível, cujas histórias continuam a ser contadas em sorrisos nostálgicos, porque, infelizmente, nunca mais voltará, mas seguirá viva na memória de todos aqueles que a viveram.
Desconheço os autores
do texto e da imagem.

Venham daí

Entre a indignação e a urgência da ação cívica

Imagem desfocada mas real de um parto recente em plena rua.

Não sou, nunca fui nem serei, defensor de críticas bacocas e desconstrutivas só porque sim, de dizer mal seja daquilo que for para denegrir os meus adversários, sejam eles políticos, desportivos ou quaisquer outros com quem não comungue ideias.
Porém e porque o Serviço Nacional de Saúde (SNS) atravessa um dos seus períodos mais críticos desde a sua fundação, torna-se impossível esconder a indignação perante o estado a que se chegou:
Relatos diários de encerramento de urgências, dificuldades no acesso aos serviços, falta de recursos humanos e materiais, decisões políticas que, ao invés de resolverem, parecem agravar a crise instalada.
É impossível ignorar as promessas públicas feitas pelo atual governo e, em especial, pela ministra da Saúde, que garantiu de forma enfática que bastariam 60 dias para resolver os principais problemas do SNS.
O desfasamento entre discurso e realidade é hoje mais evidente do que nunca porque, bem pelo contrário, assistimos ao encerramento de urgências de obstetrícia e ginecologia, obrigando mulheres grávidas a deslocarem-se longas distâncias, por vezes resultando em partos nas ruas, passeios e estradas, em situações de risco e indignidade.
A situação agrava-se cada vez mais perante a incapacidade de garantir resposta de emergência eficaz por parte do INEM, potenciada pela ausência de contratos atempados para o serviço de helicópteros.
São vidas humanas postas em risco por decisões – ou indecisões – administrativas que revelam falta de planeamento e responsabilidade.
Junta-se a isto a substituição em massa de conselhos de administração hospitalar, despedimento de enfermeiros e a ausência de diálogo construtivo com profissionais do setor, minando ainda mais a confiança e o funcionamento de todo o sistema.
Enquanto cidadãos não podemos ficar indiferentes.
Tal como se compreende e apoia a mobilização em torno de causas internacionais, torna-se premente um movimento interno de solidariedade.
É tempo dos portugueses se manifestarem de forma massiva e pacífica, exigindo mudanças urgentes na política da saúde, pela dignidade dos doentes, dos idosos, das grávidas e de todos os que dependemos do SNS.
A sua defesa é, acima de tudo, um dever de cidadania.
O momento exige união, reivindicação por soluções concretas e a exigência de responsabilidades políticas, incluindo, se necessário, a demissão dos responsáveis máximos.
É fundamental recordar que a saúde pública é um direito constitucional, e cabe a todos lutar pela sua efetiva concretização.
Em suma, é tempo de agir, de não permitir que o desespero se instale nem que vidas continuem a ser postas em risco por inação ou falta de visão estratégica.
Que cada um de nós assuma o seu papel pela defesa do SNS, em nome de uma sociedade mais justa e solidária.