segunda-feira, 27 de julho de 2026

Que...

Que este findar de dia me encontre em paz. Que o calor que ainda pesa no ar não perturbe o meu espírito, e que o silêncio que chega com o entardecer me ensine a abrandar.
Que eu saiba agradecer o dia, mesmo que tenha sido duro, mesmo que tenha trazido preocupações, mesmo que tenha exigido de mim mais do que eu pensava ter.
Que eu me lembre dos que amo, dos que caminham comigo, dos que hoje precisam de força como aquele amigo que luta pela sua saúde, como tantos que atravessam batalhas invisíveis.
Que eu seja capaz de oferecer presença, palavra boa, gesto simples, sem esperar retorno. Porque é na bondade discreta que a humanidade se reconhece.
Que a fragilidade não me assuste, mas me torne mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro.
Que a noite que se aproxima traga descanso ao corpo e serenidade ao pensamento. E que eu possa descansar, como quem pousa a enxada ao fim do dia de trabalho, sabendo que fiz o que podia, que fui quem devia ser.
Que a paz me encontre. E que eu a saiba receber.
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Doze anos sem ti, Mãe


 IN MEMORIAM
Florinda da Conceição Lourenço

07.10.1926 / 27.07.2014

A saudade, depois o silêncio

Há ausências que não se explicam, apenas se habitam. Doze anos depois, descubro que a saudade não é uma ferida, mas uma casa onde a memória acende luzes inesperadas. E é nessa casa que a minha mãe continua a entrar, sem pedir licença, como fazia quando chegava da horta com o avental cheio de cheiros da terra.
Nos últimos dias da sua vida, o corpo já não lhe obedecia, mas havia ainda uma claridade no olhar que me desconcertava. Eu sabia – como quem sabe sem querer saber – que ela caminhava para o fim. E, no entanto, havia nela uma serenidade antiga, como se já tivesse feito as pazes com tudo o que a vida lhe deu e tirou.
Uma tarde, perguntei-lhe baixinho:
– Mãe, o que sente?
Ela sorriu com aquela simplicidade que era só dela, e disse:
– Sinto vontade de ir ter com o teu pai.
Não era lamento. Era despedida. Era reencontro anunciado.
Mas o que nunca esquecerei foi o que aconteceu depois. Como se a alma tivesse encontrado uma porta secreta, ela começou a falar alto, feliz, radiante, chamando por gente que eu nunca conheci, mas que lhe habitava a juventude. Ria como quem volta a ser menina. Conversava com vozes que só ela ouvia. Chamava por animais, por lugares, por sombras boas que a acompanhavam desde o tempo em que corria livre pelos montes.
E eu, sentado ao lado, era apenas testemunha de um milagre discreto: a memória a abrir janelas para que ela pudesse respirar antes de partir.
Durante horas – tantas que perdi a conta – ela viveu num mundo que não era o meu. E nunca me chamou. Nunca disse o meu nome. Não por esquecimento, mas porque naquele instante ela regressava a um tempo anterior a todos nós, ao lugar onde a vida lhe era leve e inteira.
Quando finalmente se calou, foi como se alguém tivesse apagado o candeeiro. Adormeceu exausta, mas em paz. E eu fiquei ali, a segurar-lhe a mão, tentando compreender o que tinha acontecido.
Dias depois, partiu. Partiu como quem cumpre um destino. Partiu com uma mão na minha e outra na da minha irmã Joaquina, com a nora Maria Manuela aos pés da cama, como se quisesse garantir que nenhum de nós ficava de fora da sua última viagem.
Hoje, doze anos passados, percebo que aquele episódio não foi delírio. Foi despedida. Foi bênção. Foi a vida a oferecer-lhe, antes do fim, a alegria que talvez lhe faltava. E foi também a prova de que a memória – essa companheira fiel – sabe sempre o caminho de casa.
A saudade é um mistério inexplicável, sim. Mas é também o lugar onde ela continua viva.
Beijinho, Mãe.

domingo, 26 de julho de 2026

A encerrar o Dia dos Avós

Há dias que terminam como quem fecha uma porta devagar, sem ruído, deixando apenas o perfume do que foi vivido. O entardecer na Beirã tem esse dom antigo: transforma o quotidiano em contemplação, o gesto simples em rito, a rotina em memória.
E eu, a regar a terra como quem conversa com ela, sei que cada gota de água é também uma forma de agradecer.
A noite chega sempre com uma espécie de sabedoria. Não exige nada, não cobra nada, não apressa nada. Apenas pousa sobre as coisas, como um manto que recolhe o que ficou espalhado pelo dia.
E é nessa hora que o pensamento se torna mais claro. As preocupações perdem volume. Os ruídos interiores abrandam. A alma encontra o seu lugar.
O ser humano – qualquer um – é feito desta alternância entre luz e sombra, entre ação e repouso, entre o que se faz e o que se sente.
A escrita, que tanto me acompanha, é apenas o reflexo disso: uma forma de ordenar o mundo, de lhe dar sentido, de lhe devolver a dignidade que às vezes o dia lhe rouba.
Escrever, para mim, é no fundo, regar a terra da memória. Cada frase é uma semente. Cada pausa é um silêncio fértil. Cada palavra é uma raiz que procura profundidade.
E tento escrever como quem caminha devagar, atento ao que a vida murmura. Não preciso de pressa, nem de artifícios. A minha escrita nasce da verdade, da experiência, da contemplação, da terra que cuido e das pessoas que estimo.
A noite, agora, está mais funda. Os sons diminuem. A terra repousa. E eu também.
É tempo de recolher o que o dia deixou: um gesto de amizade, uma palavra certa, um trabalho honesto, uma memória que se acendeu, uma planta que recebeu água, um silêncio que me ensinou qualquer coisa.
O dia de amanhã virá com a sua própria luz, com novas tarefas, novas conversas, novas palavras. Mas hoje, agora, neste instante, basta-me sentir esta paz que em mim se instala devagar, como se o mundo respirasse comigo.
Descansem, sonhem, sejam felizes. A noite é nossa amiga. E para mim, a escrita também.
Boa semana...
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A dignidade de servir sem aplausos

Servir sem aplausos é uma das formas mais nobres que existe. É fazer quando ninguém está a ver. É resolver problemas que ninguém sabe que existem. É proteger pessoas que nunca saberão o que por elas se fez.
A dignidade de servir sem aplausos nasce da consciência, não da vaidade. Nasce da certeza íntima de que o dever cumprido vale mais do que qualquer elogio. Nasce da força tranquila de quem não precisa de palco para ser útil.
Há quem viva para ser visto. E há quem viva para que os outros vivam melhor.
Servir sem aplausos é ir à frente, ensinar pelo exemplo, fazer em vez de mandar, proteger antes de falar.
É estar presente na comunidade quando ninguém pede, é assumir responsabilidades que muitos evitam, é dar tempo, energia e vida onde for preciso, sem esperar nada em troca.
Servir sem aplausos tem, porém, um preço injusto: muitas vezes não é reconhecido, muitas vezes é esquecido, muitas vezes é substituído por intenções nunca cumpridas.
Mas quem, mesmo assim serve, não se perde, porque o valor não vem dos aplausos, vem da consciência tranquila e daquilo que permanece na memória de quem viu e sabe que foi feito.
Servir sem aplausos é ser pedra firme numa parede em construção. É ser raiz num terreno que outros abandonaram. É ser presença onde a ausência impera.
Por último, a dignidade de servir sem aplausos é fazer o bem sem olhar a quem, é cumprir o seu dever sem esperar recompensa, é deixar marca sem precisar de assinatura. É ser útil, verdadeiro e inteiro.
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Crónica para o Dia dos Avós

Há dias em que o coração pede silêncio antes de começar a falar. Hoje Dia de Santa Ana e de São Joaquim, Avós do Menino Jesus e consequentemente Dia de Todos os Avós, daqueles que já foram, e dos que ainda são, é um deles.
Não é um dia de festa ruidosa; é um dia de recolhimento. Um dia em que cada pessoa se lembra de quem lhe segurou a infância pelas pontas, para que ela não se desfizesse ao vento.
Estou sentado à mesa na minha casa na Beirã, com a luz da manhã a entrar devagar, como se soubesse que aqui mora uma história antiga. A Maria Manuela sentada a meu lado, no seu jeito tranquilo de quem aprendeu a amar sem fazer alarde.
E juntos, sem precisarmos de muitas palavras, somos avós, não apenas no nome, mas também na alma.
As nossas Princesas, Francisca, Mariana e Filipa não imaginam ainda o que significa terem-nos. Para elas nós somos apenas o colo certo, a casa onde o cheiro do jantar tem sempre um toque de memória, o lugar onde o tempo abranda e a vida parece mais inteira.
Mas um dia, quando forem mulheres, vão perceber que a nossa presença nas suas vidas foi a primeira forma de segurança que o mundo lhes ofereceu.
E eu sei bem o valor disso, porque também fui neto. E os meus amados avós, que já não estão, ainda me acompanham quando caminho ao entardecer, quando rego a terra, quando abraço as minhas Princesas.
Eles estão em todos esses meus gestos. Estão no modo como ajeito a vida, como quem aprendeu, pelo seu exemplo, que tudo o que vale a pena precisa de cuidado.
Ser avós é continuar uma história que começou muito antes de nós, é ser ponte entre o que já foi e o que ainda virá, é guardar no olhar uma paciência que só a idade concede, é amar sem urgência, como quem sabe que o amor verdadeiro não precisa de ser apressado.
Hoje eu e a avó Maria Manuela celebramos mais do que um dia.
Celebramos a continuidade. Celebramos o privilégio de ver três vidas crescer com raízes que nós ajudamos a firmar. Celebramos o dom de sermos memória viva, de sermos abrigo, de sermos esta ternura que não se explica – sente-se.
E, no fundo, celebramos também os avós que nos antecederam, porque tudo o que nós damos às nossas Princesas, é, de alguma forma, herança deles.
Neste dia, deixo-vos esta crónica como quem acende uma vela, não para iluminar a casa, mas para aquecer o coração.
Feliz Dia dos Avós 2026.

sábado, 25 de julho de 2026

A paz conquista-se

A paz não chega de repente. Não cai do céu como chuva inesperada. A paz é trabalho, é escolha, é disciplina. É algo que se constrói devagar, como quem levanta um muro: uma pedra hoje, outra amanhã, sempre com cuidado para que nada fique torto.
A paz que eu conquisto não vem dos outros, vem de mim. Vem do momento em que decido não responder à provocação. Vem da hora em que escolho o silêncio em vez da guerra. Vem da coragem de me afastar do que me magoa, mesmo quando isso me custa.
A paz não é passividade. A paz é força. É saber que posso reagir, mas escolho não o fazer porque a minha tranquilidade vale mais do que qualquer disputa.
A paz que conquisto nasce quando deixo de tentar controlar o que não depende de mim. Quando aceito que há pessoas que não vão mudar. Quando entendo que há situações que não merecem o meu desgaste.
Quando percebo que a minha energia é preciosa e não pode ser desperdiçada.
A paz também exige limites. Exige dizer “não”. Exige fechar portas que já não levam a lugar nenhum. Exige afastar quem chega sempre como tempestade e nunca como abrigo.
E, ao mesmo tempo, a paz é generosidade: é olhar para quem me feriu e já não sentir raiva; é lembrar o passado sem carregar o seu peso; é seguir em frente sem querer vingança.
A paz que conquisto é simples: é acordar e sentir que estou inteiro; é deitar-me sabendo que não traí a minha essência; é viver sem barulho dentro de mim.
A paz não é dada. A paz é conquistada. E eu conquisto-a todos os dias com silêncio, com limites, com escolhas, com calma.
Com mel, nunca com vinagre.
Bom domingo, pessoal!
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