sábado, 27 de setembro de 2025

Até que Deus queira

Tinha apenas seis anos quando comecei a servir a igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã. Estávamos em 1958 e era pároco o Reverendo Joaquim Caetano, já falecido. Foi ele quem me escolheu para seu acólito mal comecei a frequentar a escola e a catequese.

Ensinou-me princípios e transmitiu-me valores tais que a ele devo também muito do que sou, quer na minha formação como pessoa, quer no carácter e integridade. Por tudo isso guardo por ele até hoje uma amizade, respeito e consideração sem limites.

Porque a minha mãe não tinha posses para me comprar roupas finas para o acolitar, era ele quem comprava tecidos e mandava fazer-me as roupas domingueiras às costureiras que naquele tempo abundavam na aldeia.

Calções e calças de terylene, camisas de popelina, casacas e blusões quentinhos. E comprava-me também sapatos na fábrica Ebro de Santo António das Areias, a única que por aqui existia nesse tempo, pois só alguns anos mais tarde foi construída a Celtex.

Não haverá já por cá muita gente que se recorde destas coisas e as que houver se calhar não vão ler estas minhas memórias porque ou serão já muito velhinhas ou provavelmente nem saberão ler nem escrever.

Pese embora a minha força anímica esteja já muito mais debilitada, tenho continuado a colaborar em tudo o que posso e sei desde que vim morar definitivamente para a Beirã em 1 de Novembro de 1992 e imediatamente me "alistei", com a minha esposa, quer no coro paroquial, quer como leitor e salmista até 1999.

No ano 2000, 2001 e 2002, por indisponibilidade do então Conselho Económico Paroquial, foi-me solicitado pelos Revºs Párocos Tarcísio e Luís Ribeiro que tomasse temporariamente ao meu cuidado as contas da Paróquia cuja nomeação oficial só foi efetivada em 2003, a partir de quando integrei o Conselho Económico Paroquial por despacho de Sua Eminência o Bispo da Diocese para essas funções e mandatos sucessivos, até ao dia de hoje.

Tenho guardados em suporte informático e também em papel, todos os processos que justificam cada cêntimo de receita, cada cêntimo de despesa, semanais, mensais e anuais, desde 2000.

A contabilidade da igreja, das obras de restauro e conservação realizadas, dos donativos, da instalação do relógio digital e automatização dos sinos, da colocação das luzes LED, das despesas com vencimentos dos sacerdotes e todas as outras. Ao pormenor, limpinhas e fáceis de entender. Tudo pronto a entregar a quem de direito.

E mais.

Este cargo no CEP da Paróquia da Beirã, está, como sempre esteve, disponível todos os dias e a todas as horas, ao completo dispor de quem me escolheu e nomeou, prontíssimo a entregar a quem se oferecer para me substituir. É só chegar-se à frente quem o quiser e seja muito bem-vindo.

Sei que sempre cumpri as minhas obrigações com lealdade, dedicação, esforço e empenho. Sei também que nunca cobrei um cêntimo sequer por nada do que fiz. Ofereço, desde o já longínquo ano 2000 gratuitamente os meus serviços e tempo, o meu computador, tinteiros e resmas de papel da impressora, o combustível do automóvel nas deslocações ao banco, às reuniões a Portalegre, a São Tiago, a Mem Soares, a Nisa, a Castelo de Vide, a Marvão e a muitas outras localidades onde os párocos me solicitaram que fosse.

Sozinho, ou, quando muito, acompanhado apenas pela minha esposa, a qual, por sua vez, cuida ainda também gratuitamente do asseio e arrumação da igreja e dos altares em conjunto com outras duas senhoras, para além de passar horas a conferir, a separar e a acondicionar as moedas dos ofertórios que lhe são entregues por quem confere as oferendas no final de cada missa na igreja e das caixas, para posteriormente eu ir depositar no banco e na conta da paróquia que está sempre em dia.

Paguei ainda do meu bolso os cursos de ministro extraordinário da comunhão e da celebração da palavra na ausência do presbítero - MECDAP - o curso para aprofundamento da fé - CAF - que teve a duração de três anos letivos no Seminário de Portalegre, de muitas outras formações em Mem Soares, em Alcains, Abrantes e Proença-a-Nova. Deslocações, alimentação, combustíveis e pagamento individual de cada curso ou formação.

Com que intenção?

Única e exclusivamente formar-me minimamente para melhor conseguir colaborar em tudo o que me ia sendo proposto pelos párocos no serviço à comunidade paroquial a que pertenço.

É mais que verdade que "na sua terra ninguém é profeta". Muitas vezes me senti triste e desmotivado. Muitas vezes também me apeteceu mandar tudo às malvas. Mas a sempre reiterada confiança e sincera amizade dos párocos Tarcísio e Luís Ribeiro, aliadas à minha forte convicção de missão e de serviço a esta comunidade, conseguiram superar sempre a vontade de desistir.

Até quando?

Não sei. Até que Deus queira, provavelmente.

José Coelho - Texto e foto