Tinha apenas seis
anos quando comecei a servir a igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã.
Estávamos em 1958 e era pároco o Reverendo Joaquim Caetano, já falecido. Foi
ele quem me escolheu para seu acólito mal comecei a frequentar a escola e a
catequese.
Ensinou-me
princípios e transmitiu-me valores tais que a ele devo também muito do que sou,
quer na minha formação como pessoa, quer no carácter e integridade. Por tudo
isso guardo por ele até hoje uma amizade, respeito e consideração sem limites.
Porque a minha mãe
não tinha posses para me comprar roupas finas para o acolitar, era ele quem
comprava tecidos e mandava fazer-me as roupas domingueiras às costureiras que
naquele tempo abundavam na aldeia.
Calções e calças de
terylene, camisas de popelina, casacas e blusões quentinhos. E comprava-me
também sapatos na fábrica Ebro de Santo António das Areias, a única que por
aqui existia nesse tempo, pois só alguns anos mais tarde foi construída a
Celtex.
Não haverá já por
cá muita gente que se recorde destas coisas e as que houver se calhar não vão
ler estas minhas memórias porque ou serão já muito velhinhas ou provavelmente
nem saberão ler nem escrever.
Pese embora a minha força anímica esteja já muito mais debilitada, tenho continuado a
colaborar em tudo o que posso e sei desde que vim morar definitivamente para a
Beirã em 1 de Novembro de 1992 e imediatamente me "alistei", com a
minha esposa, quer no coro paroquial, quer como leitor e salmista até 1999.
No ano 2000, 2001 e
2002, por indisponibilidade do então Conselho Económico Paroquial, foi-me
solicitado pelos Revºs Párocos Tarcísio e Luís Ribeiro que tomasse
temporariamente ao meu cuidado as contas da Paróquia cuja nomeação oficial só foi efetivada em 2003, a partir de quando integrei o Conselho Económico
Paroquial por despacho de Sua Eminência o Bispo da Diocese para essas
funções e mandatos sucessivos, até ao dia de hoje.
Tenho guardados em
suporte informático e também em papel, todos os processos que justificam cada
cêntimo de receita, cada cêntimo de despesa, semanais, mensais e anuais, desde
2000.
A contabilidade da
igreja, das obras de restauro e conservação realizadas, dos donativos, da
instalação do relógio digital e automatização dos sinos, da colocação das luzes LED,
das despesas com vencimentos dos sacerdotes e todas as outras. Ao pormenor,
limpinhas e fáceis de entender. Tudo pronto a entregar a quem de direito.
E mais.
Este cargo no CEP
da Paróquia da Beirã, está, como sempre esteve, disponível todos os dias e a
todas as horas, ao completo dispor de quem me escolheu e nomeou, prontíssimo a
entregar a quem se oferecer para me substituir. É só chegar-se à frente quem o
quiser e seja muito bem-vindo.
Sei que sempre
cumpri as minhas obrigações com lealdade, dedicação, esforço e empenho. Sei
também que nunca cobrei um cêntimo sequer por nada do que fiz. Ofereço, desde o
já longínquo ano 2000 gratuitamente os meus serviços e tempo, o meu computador,
tinteiros e resmas de papel da impressora, o combustível do automóvel nas
deslocações ao banco, às reuniões a Portalegre, a São Tiago, a Mem Soares, a
Nisa, a Castelo de Vide, a Marvão e a muitas outras localidades onde os párocos
me solicitaram que fosse.
Sozinho, ou, quando
muito, acompanhado apenas pela minha esposa, a qual, por sua vez, cuida ainda
também gratuitamente do asseio e arrumação da igreja e dos altares em conjunto
com outras duas senhoras, para além de passar horas a conferir, a separar e a
acondicionar as moedas dos ofertórios que lhe são entregues por quem confere as
oferendas no final de cada missa na igreja e das caixas, para posteriormente eu
ir depositar no banco e na conta da paróquia que está sempre em dia.
Paguei ainda do meu
bolso os cursos de ministro extraordinário da comunhão e da celebração da
palavra na ausência do presbítero - MECDAP - o curso para aprofundamento da fé
- CAF - que teve a duração de três anos letivos no Seminário de Portalegre, de
muitas outras formações em Mem Soares, em Alcains, Abrantes e Proença-a-Nova.
Deslocações, alimentação, combustíveis e pagamento individual de cada curso ou
formação.
Com que intenção?
Única e
exclusivamente formar-me minimamente para melhor conseguir colaborar em tudo o
que me ia sendo proposto pelos párocos no serviço à comunidade paroquial a que
pertenço.
É mais que verdade
que "na sua terra ninguém é profeta". Muitas vezes me senti triste e
desmotivado. Muitas vezes também me apeteceu mandar tudo às malvas. Mas a
sempre reiterada confiança e sincera amizade dos párocos Tarcísio e Luís
Ribeiro, aliadas à minha forte convicção de missão e de serviço a esta
comunidade, conseguiram superar sempre a vontade de desistir.
Até quando?
Não sei. Até que
Deus queira, provavelmente.
José Coelho - Texto e foto
