terça-feira, 23 de setembro de 2025

Saudades


Eram dias e semanas de intensa felicidade. Em tempo de férias escolares e com os papás a trabalharem, a neta Francisca vinha para a aldeia para junto dos avós. E não tardava que a neta Mariana quisesse também fazer parte da "equipa" e se apresentasse de armas e bagagens para ficar conosco até que lhe apetecesse.

Era muito bom, mesmo.
A Toca dos Coelhos normalmente monótona, arrumadinha e silenciosa, enchia-se de vida, de gargalhadas e da saudável bagunça que é sinónimo evidente da presença de crianças descontraídas e felizes.
Quase tudo lhes era permitido aqui. As refeições sempre "à la carte" com direito de opção e apenas uma cláusula inegociável que não provocou qualquer greve porquanto as partes aceitaram o trato de comum acordo; sopinha de legumes quer ao almoço, quer ao jantar e no mínimo, caço e meio...
Cumpriam sem protestar e portavam-se lindamente. Duas autênticas senhoras!
Ah pois...
Ao pequeno almoço, as panquecas ou "manhãzitos" preferidas, com nutela. Eu pronunciava propositadamente "pan-cuecas" para elas rirem divertidas:
- Avô, não se diz "pan-cuecas"! Diz-se pan-ke-kas...
- Ai é??? Mas aqui na embalagem diz pan-qu-é-cas...
- Eheheh...
Manhãs, tardes e serões inesquecíveis.
A hora de levantar era... quando cada uma acordava. Sem toque de alvorada nem de recolher. Férias eram férias. Já bastava terem de levantar-se às sete da manhã em tempos de escola, e, principalmente no inverno, saírem do quentinho da cama para o ar gélido, ainda meio noite.
A casa dos avós tinha de significar o refúgio acolhedor que lhes garantia muitos mimos e também algumas transgressões às regras, sem que isso significasse bandalheira ou quaisquer faltas censuráveis. Nada disso. Como eu guardo as mais doces recordações dos meus, quero deixá-las também na sua infantil memória.
Não havia dois dias iguais. Eram todos divertidos, diferentes, havendo de tudo um pouco.
O pior eram as saudades dos papás que às vezes eram muitas. Porém, nada que não se resolvesse com uma rega às plantas do quintal ou ir tratar dos animais da quinta imaginária que as duas partilhavam.
Uma tinha as vacas e os cavalos, a outra as galinhas e as ovelhas. A Avó até lhes arranjava uns canecos para levarem as rações por isso os animais e as aves eram tratados com tal esmero que nunca mais necessitávamos de comprar ovos, carne ou leite, porque a quinta imaginária dava de tudo em abundância!
Mas...
Como o que é bom acaba sempre depressa, os dias e semanas passavam a correr. E as Pipoquinhas regressavam a suas casas. Por sua vez, o silêncio, a arrumação e a monotonia regressavam à Toca. Ficava-me o sério encargo de cuidar da quinta imaginária o que eu procurava fazer responsavelmente e só tinha um pequeno problema.
Cada vaca, cada cavalo, cada galinha ou ovelha imaginárias tinham um nome. E eu esquecia-me sempre de os apontar. E eles só comiam e bebiam se fossem chamados um por um...
Saite? Maique? Laique? Era algo assim...
E agora?
Para as próximas férias - prometia-lhes - irei tomar melhor nota do recado, minhas queridas agricultoras. Ah! E sinto ainda hoje também muita falta da nossa despedida em coro, antes de irmos todos à cama, inventada ou copiada de uma série de desenhos animados pela nossa compincha Marianita:
- Escuduuuuu...
Saudades vossas, meus amores!
Sniffff...

Texto e foto das Férias grandes de 2020