terça-feira, 30 de setembro de 2025

O Caminhar da Vida


Desde menino que caminhar foi o meu único modo de encurtar distâncias. E não foi uma escolha ditada pela moda ou conveniência, mas sim pelas circunstâncias da vida.
Os meus pais, pessoas humildes, não tinham possibilidades para me comprarem bicicletas ou motorizadas como tinham alguns rapazes da minha idade.
Nesse tempo os carros eram raros na nossa terra e privilégio de poucos. Caminhar era por isso para mim, mais do que um hábito: era uma necessidade.
Recordo-me das longas caminhadas diárias de 15 quilómetros entre a Beirã e o Porto de Espada, quando acompanhei o meu pai na pavimentação da estrada municipal que liga aquela povoação à estrada dos Galegos.
Subempreiteiro dedicado, ensinou-me assim o valor do trabalho árduo, da honestidade e da persistência.
Caminhávamos juntos muito antes do sol nascer, cruzando trilhos pela serra e atalhos por entre tapadas, canchos e castinçais, enfrentando subidas e descidas que testavam a nossa força e determinação.
Nessas jornadas a sorte por vezes sorria-nos e, ocasionalmente, algum conhecido de carroça dava-nos boleia. Mas regra geral, eram as pernas que faziam o caminho e a paisagem serrana que nos animava.
No regresso não havia cansaço suficiente para nos tirar o sorriso da boca ou apagar a felicidade simples de quem trabalhava com dignidade e partilhava o pão
A falta de bens materiais nunca me fez sentir menor. Bem pelo contrário, a consciência de que o essencial era a comida na mesa, a roupa no corpo e os sapatos nos pés para os seis membros da família, tornou-me mais forte e resiliente.
Se os meus amigos se reuniam nas tascas para petiscar e beber aos domingos, eu encontrava prazer nos livros à sombra de um sobreiro ou dum cancho, cultivando sonhos e aprendendo com o mundo à minha volta.
As limitações da infância moldaram-me e ensinaram-me a aceitar a vida com o que ela oferece, sem invejar o vizinho nem guardar ressentimentos.
Não havia espaço para queixumes ou complexos de inferioridade.
Havia, pelo contrário, uma aceitação madura e serena da realidade e a busca constante da alegria nas pequenas coisas.
Tudo o que sou devo à estrutura moral dos meus pais, que nos transmitiram, sem saberem ler ou escrever, lições de integridade, honestidade e humildade.
Foram verdadeiros “licenciados” na Universidade da Vida.
Deles aprendi que a felicidade não depende do que possuímos, mas do que somos e do que partilhamos.
O reconhecimento e o respeito pela sua memória que ainda hoje sinto por parte de amigos e antigos vizinhos são a prova viva da dignidade com que a minha família viveu.
O orgulho de ser parte desta árvore tão sã transborda em mim, especialmente quando a saudade aperta e me obriga a recordar, a dizer e a escrever sobre eles.
Caminhar foi e continua a ser por isso mesmo para mim, mais do que um exercício físico.
Foi escola de vida, forjadora de caráter e fonte de alegria. Fez-me homem, ensinou-me a não temer distâncias, noites escuras ou caminhos desconhecidos.
Deu-me coragem para enfrentar desafios, fossem eles festas nas aldeias vizinhas, bailes, ou amores que moravam longe.
Hoje olho para trás com gratidão e orgulho, reconhecendo que, apesar de tantas dificuldades fui um rapaz feliz, e sou, até hoje, um homem satisfeito com o legado de princípios e afetos que recebi.
Procuro transmitir o mesmo aos meus filhos, perpetuando a herança de uma família pobre em posses, mas riquíssima em valores.
A minha história é uma homenagem a todos os que, como eu, aprenderam a caminhar pela força da necessidade e acabaram por fazer desse trajeto o caminho maior da sua vida.
Saber ser feliz com o que se tem, aceitar a simplicidade, valorizar o trabalho e a honestidade, são as maiores riquezas que qualquer um pode ambicionar.
José Coelho
Imagem:
Cercada pelo carinho de três dos seus quatro filhos e cinco dos seus sete netos, a nossa matriarca Florinda Lourenço no dia do seu 85º aniversário natalício.