sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O silêncio do pôr do sol

Pôr do sol na Lagem Alta - Beirã

O pôr do sol é, para mim, o instante mais especial de cada dia. Já escrevi sobre isso inúmeras vezes, mas nunca deixo de me surpreender com as cores inesperadas que, por breves minutos, iluminam as paisagens bucólicas da minha terra natal.

São momentos únicos e, ao mesmo tempo, inesquecíveis.

algo de profundamente intrigante na forma como a natureza se silencia nos instantes que antecedem o desaparecimento do sol atrás da linha do horizonte. Esse fenómeno repete-se todos os dias e, mesmo assim, continua a ser surpreendente.

O mais fascinante é que as cores do ocaso mudam a cada dia, oferecendo sempre uma nova paleta àqueles que se dispõem a observar.

Hoje, sentados na varanda eu e a minha companheira, fomos surpreendidos por uma quietude absoluta. Nem os pássaros se ouviam e a ausência de qualquer som parecia tornar o momento ainda mais solene.

“Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem!”

Não pude deixar de concordar, partilhando do seu espanto antes de nos entregarmos, ambos, ao silêncio.

A luz do sol tomou um tom fortemente alaranjado, como se os canchos e o montado distantes fossem iluminados por holofotes, tal como acontece com as muralhas de Marvão à noite.

Lentamente essa luz foi-se extinguindo, à medida que o astro-rei ia desaparecendo atrás da serra da Penha de Castelo de Vide. Nem um sopro de brisa, nem um pio de ave; a tranquilidade era total.

Logo depois, a barra cinzento-escura da noite começou a avançar, cobrindo a paisagem que minutos antes brilhava sob o sol.

Não resisto a acreditar que este é o momento do dia em que Deus desce à terra e que, por isso, toda a Sua criação se cala em profundo respeito. A paz que me invade nesses instantes é tão doce que fecho os olhos e agradeço pela vida, pela família, pelos amigos, pela saúde e por cada dia vivido.

É nesses momentos de comunhão com a natureza que a oração me surge de forma mais natural, mais até do que dentro da igreja, rodeado pela assembleia.

Se nunca prestaram atenção a este fenómeno, convido-vos: subam a um outeiro, escolham um lugar tranquilo e esperem pelo pôr do sol. Até sentados na muralha de Marvão, ou mesmo no vosso quintal, como faço no meu, poderão experimentar esse silêncio intrigante.

Aposto que irão surpreender-se com a quietude que, por instantes, envolve tudo em redor.

É um momento efémero, apenas o tempo necessário para o sol tocar a linha do horizonte e desaparecer por completo. Tão surpreendente que parece não nos atrevermos sequer a respirar para não perturbar a paz que nos envolve.

A vida, a natureza e o mundo, são maravilhosos, ainda que muitas vezes não lhes prestemos atenção suficiente. Às vezes olhamos, mas não vemos. Acredito que esses momentos são uma dádiva do Criador, uma oportunidade de sentir a Sua presença todos os dias.

Contudo, respeito quem pensa de forma diferente, porque cada um sabe de si.

Desejo-vos um excelente fim de semana, repleto de momentos de paz e comunhão com a natureza.

José Coelho Texto e foto