São momentos únicos e, ao mesmo tempo, inesquecíveis.
Há algo de profundamente intrigante na forma como a natureza se silencia nos instantes que antecedem o desaparecimento do sol atrás da linha do horizonte. Esse fenómeno repete-se todos os dias e, mesmo assim, continua a ser surpreendente.
O mais fascinante é que as cores do ocaso mudam a cada dia, oferecendo sempre uma nova paleta àqueles que se dispõem a observar.
Hoje, sentados na varanda eu e a minha companheira, fomos surpreendidos por uma quietude absoluta. Nem os pássaros se ouviam e a ausência de qualquer som parecia tornar o momento ainda mais solene.
“Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem!”
Não pude deixar de concordar, partilhando do seu espanto antes de nos entregarmos, ambos, ao silêncio.
A luz do sol tomou um tom fortemente alaranjado, como se os canchos e o montado distantes fossem iluminados por holofotes, tal como acontece com as muralhas de Marvão à noite.
Lentamente essa luz foi-se extinguindo, à medida que o astro-rei ia desaparecendo atrás da serra da Penha de Castelo de Vide. Nem um sopro de brisa, nem um pio de ave; a tranquilidade era total.
Logo depois, a barra cinzento-escura da noite começou a avançar, cobrindo a paisagem que minutos antes brilhava sob o sol.
Não resisto a acreditar que este é o momento do dia em que Deus desce à terra e que, por isso, toda a Sua criação se cala em profundo respeito. A paz que me invade nesses instantes é tão doce que fecho os olhos e agradeço pela vida, pela família, pelos amigos, pela saúde e por cada dia vivido.
É nesses momentos de comunhão com a natureza que a oração me surge de forma mais natural, mais até do que dentro da igreja, rodeado pela assembleia.
Se nunca prestaram atenção a este fenómeno, convido-vos: subam a um outeiro, escolham um lugar tranquilo e esperem pelo pôr do sol. Até sentados na muralha de Marvão, ou mesmo no vosso quintal, como faço no meu, poderão experimentar esse silêncio intrigante.
Aposto que irão surpreender-se com a quietude que, por instantes, envolve tudo em redor.
É um momento efémero, apenas o tempo necessário para o sol tocar a linha do horizonte e desaparecer por completo. Tão surpreendente que parece não nos atrevermos sequer a respirar para não perturbar a paz que nos envolve.
A vida, a natureza e o mundo, são maravilhosos, ainda que muitas vezes não lhes prestemos atenção suficiente. Às vezes olhamos, mas não vemos. Acredito que esses momentos são uma dádiva do Criador, uma oportunidade de sentir a Sua presença todos os dias.
Contudo, respeito quem pensa de forma diferente, porque cada um sabe de si.
Desejo-vos um excelente fim de semana, repleto de momentos de paz e comunhão com a natureza.
José Coelho - Texto e foto