Há na vida alguns companheiros cuja presença se faz sentir sem nunca lhes vermos o rosto. O vento, meu amigo mais antigo e misterioso, sempre caminhou ao meu lado, por vezes com bravura tempestuosa, outras tantas com doçura quase maternal.
Quem nunca ouviu o seu uivo nas noites de inverno, resguardado junto ao lume, não conhece o verdadeiro sabor do abrigo e da segurança. Enquanto lá fora ele investia com força contra o mundo, dentro de casa reinava a paz, o crepitar do fogo competindo em melodia com os passos furiosos do vento no telhado.
Era, paradoxalmente, o seu rugido que me fazia sentir protegido, envolto na intimidade da família e dos pequenos rituais da vida rural.
Os anos ensinaram-me a respeitar o vento em todas as suas facetas. Tornei-me discípulo dos seus caprichos, aprendendo a arte de domar uma chama exposta ao relento, aquecer-me com poucos recursos, acender o lume ao ar livre sem arriscar tragédias.
Tive o privilégio de assistir à sabedoria dos camponeses, esses mestres do fogo e do vento que cozinhavam com engenho e cuidado, preservando a terra de incêndios que hoje se tornaram demasiado frequentes.
Para eles o vento era um desafio cordial; nunca inimigo, sempre presença a ser compreendida.
Recordo-me com saudade que dói e enternece, das noites passadas nas sóchas e sôchos, abrigos singelos, obras-primas do engenho ancestral, onde o vento encontrava resistência e respeito. Fascinava-me ver como, mesmo enfurecido, o vento não conseguia destelhar essas pequenas fortalezas vegetais.
A forma cónica da sua cobertura, a ausência de frinchas, tudo contribuía para que aquele amigo invisível apenas roçasse a superfície, sem jamais penetrar o coração do abrigo.
Eram lições silenciosas sobre fragilidade e resistência, sobre como o que parece frágil pode, afinal, ser inquebrável.
A minha infância foi marcada pelo convívio com pastores avós e tios e com esses refúgios onde a vida era simples e profunda. O vento, do lado de fora, sibilava segredos antigos nas giestas e nas palhas, embalando sonhos de quem ali pernoitava.
Aprendi que o sôcho, mais pequeno e portátil, era um lar transitório montado e desmontado ao ritmo das necessidades do rebanho e do pastor. Já a sócha fixa e robusta era a casa-mãe, abrigando pessoas e histórias, aquecendo corpos e almas sob a sua carapaça de giesta.
Este amigo invisível muitas vezes acusado de rudeza ou imprevisibilidade foi para mim sempre fonte de encantamento. Nos dias em que tudo parecia demasiado pesado, era o seu murmúrio leve nas ramagens ou a dança das nuvens que ele guiava pelo céu, que me devolviam a serenidade.
Deitar-me na erva, sentir a brisa no rosto, escutar aquele sussurrar, tudo isso era regressar ao colo da infância, ao tempo em que o vento parecia carregar as vozes queridas e distantes dos que já partiram.
O segredo, aprendi também, está no respeito mútuo.
Nunca enfrentei o vento de peito aberto quando ele vinha irado. Recolhia-me, deixava-o passar. E, nos dias mansos, abria-lhe as janelas do pensamento, permitindo que lavasse as inquietações e trouxesse consigo a promessa de renovação.
Mais do que força da natureza, o vento foi e é o meu confidente invisível, testemunha dos meus silêncios, guardião das minhas memórias mais ternas, mensageiro do tempo e da esperança.
Assim sigo caminhando, com o vento a soprar ora forte, ora suave, certo de que, enquanto houver brisas e tempestades, haverá sempre lugar para o reencontro com o meu amigo invisível.
Na sua companhia, cada saudade se torna menos densa e cada memória mais viva, transportada no dorso invisível desse velho companheiro eterno.
José Coelho
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