No sossego da minha
casa, rua e aldeia, onde só o cantar das rolas pousadas nas chaminés ou da outra
passarada que habita nas árvores das redondezas quebram o silêncio reinante, as
primeiras horas da manhã de cada dia são normalmente dedicadas à leitura de
alguns jornais diários em suporte digital para “espreitar” o mundo, ou
“escrevinhar” algo para o “meu vício da escrita” ou outras redes sociais.
Por companhia uma
brisa morna deste início de outono que se filtra pelas venezianas das janelas em
direção às outras divisões da casa e se vai transformando
numa suave corrente de ar que refresca todo o rés-do-chão de forma
natural, melhor do que os ares condicionados.
De vez em quando
uma voltinha pelo quintal a verificar a água dos baldes onde a pardalada bebe e
trocá-la por água fresca, regar a salsa, as dálias, as roseiras e os
vasos, mais uma varridela nas folhas que já começam a cair…
E pronto.
Está feita a parte da manhã. Segue-se o almoço tranquilo com a minha companheira, depois escriturar algumas coisas na contabilidade relativa aos compromissos em prol da comunidade que assumo há vários anos.
Assim se passam as horas até que cai a
tarde.
Quando me lembro o quanto aspirei pela reforma e quantas vezes pensei se algum dia lá chegaria, estava tão, mas tão equivocado.
O tempo é sem dúvida o melhor mestre.
Quando
somos crianças ansiamos ser adultos. Quando somos adultos pretendemos ser mais
adultos ainda e quando atingimos a maturidade queremos voltar às nossas raízes a pensar como vai ser bom ter o tempo todo só para nós, longe de quaisquer preocupações.
Puro engano.
Quando alcancei o sonho, fartei-me dele em três tempos.
Os primeiros meses foram de facto de puro
deleite. Deita-me à hora que me apetecia sem preocupações para o dia seguinte,
levantava-me quando me dava na gana sem olhar sequer para o exigente relógio que
durante décadas me gritara às sete da manhã:
Levanta-te…
Tomado o pequeno
almoço ia a correr para o quintal de novo, onde nenhuma erva tinha sequer
autorização de assomar à face da terra, quanto mais de crescer, porque eu andava quase de lupa a vigiá-las para as liquidar sem dó nem piedade no momento
seguinte.
Depressa porém percebi o
ridículo do meu comportamento, porque não se pode impedir a erva de crescer nem os maios de florir.
E aos poucos os
dias começaram a ser enormes, inúteis, insípidos e enfadonhos.
Até as rotineiras
caminhadas pelos bonitos campos da freguesia acabam por ser sempre mais do
mesmo, porque conhecemos já de cor cada pedra, cada fonte, cada arvore do montado, cada
caminho, vereda ou casa por mais longínquas que sejam.
Por incrível que
pareça e habituadas à nossa presença, nem sequer as raposas fogem de
nós.
Param apenas nos olhar como que em resposta ao nosso "olá vizinha" e
seguem o seu caminho na incessante busca do cada vez também mais escasso
alimento, porque até os coelhos bravos que eram a base da sua alimentação e
outrora tão abundantes por estes canchais, estão em vias de extinção.
É
isto a reforma?
Quem
dera ter que levantar-me de novo cada manhã para ir trabalhar!
Vá
lá a gente entender-se...
Nunca
estamos satisfeitos com o que temos.
Verdade
mesmo!
José Coelho
