terça-feira, 30 de setembro de 2025

Da têmpera do junco

Atravessar décadas e testemunhar tão profundas transformações na sociedade, nos lugares e até nas pessoas, é um privilégio que nem todos compreendem da mesma forma. Na minha experiência vivida, as mudanças à minha volta foram demasiado radicais num espaço de apenas três ou quatro décadas.
Não eram supostas, talvez, mas tornaram-se inevitáveis. A vida e o tempo impõem-se, mudando usos, costumes e, até, o próprio ritmo da nossa existência.
Passados mais de setenta anos, carrego o olhar de quem parece já ter vivido um século. O mundo que conhecia foi substituído por outro, muito diferente, ainda que a terra e alguns rostos sejam os mesmos.
A aldeia mudou paradoxalmente, pelo mesmo progresso que a fez crescer e a descaracterizou. Algumas pessoas também mudaram, outras partiram em busca de sustento ou apenas por terem chegado ao fim do seu tempo neste lugar.
Aceito que tudo mude e se transforme porque é parte do ciclo natural da vida. Mas surpreende-me e até me inquieta a facilidade com que algumas pessoas se desresponsabilizam dos seus atos, justificando comportamentos sob qualquer pretexto.
Não sou, nunca fui assim, nem pretendo sê-lo. Venho de uma linhagem de gente desta região: Castelo de Vide, Marvão, e, por laços familiares, até da vizinha Espanha. Sempre conheci a família unida, enraizada, respeitadora dos seus e dos outros, orgulhosa dos seus princípios, costumes e tradições.
O valor da sua palavra, era maior que o de qualquer documento timbrado.
Foi nesse contexto de honra, boa educação e respeito que fui criado e ensinado para a vida. Os meus pais e avós nunca tiveram facilidades, mas viveram honestamente, sustentando-se do seu trabalho sem invejar o que era dos outros. Apesar da sua humildade, foram exemplos de perfeição humana, nunca fazendo uso de maus exemplos ou proferindo más palavras.
O respeito era a regra: entre si, para com os filhos e netos, e para com toda a comunidade. É a eles que devo o que sou e, mais importante ainda, o que procurei transmitir aos meus filhos.
Os valores fundamentais não se aprendem na escola, mas desde o berço em casa, no exemplo silencioso e constante de quem nos cria.
Não será por isso agora, mesmo perante a sensação deste “vale tudo” social, que mudarei a minha forma de ser e de estar. Cada um é responsável pelo que diz, faz e pelas razões que encontra para agir.
O tempo, esse sim, continua a ser o melhor juiz: cedo ou tarde, tudo se ajusta ao seu devido lugar.
Não tenho dúvidas.
Por isso mesmo e por mais fortes que sejam os ventos, serei sempre da mesma têmpera do junco. Poderei até algumas vezes vergar, mas quebrar, nunca.

Texto e foto
30. 09. 2025