A vida profissional, por vezes, desafia não apenas as nossas competências técnicas, mas principalmente os nossos valores e a nossa humanidade.
Foi em Nisa, há 35 anos, no exercício de funções de comando, que me deparei com uma dessas situações limite: a chefia direta de um superior cuja postura e comportamento criavam um clima tenso e muitas vezes insuportável.
Este não se limitava a ser duro na relação com os subordinados, estendendo esse comportamento à comunidade e até à própria família, situação que, na atualidade, não passaria impune perante a lei.
A cada dia, sentia-me mais dividido entre a amizade, o dever de lealdade institucional e a responsabilidade de proteger os direitos dos meus subordinados.
As suas queixas e uma censura silenciosa mas visível dos civis faziam-se sentir, colocando-me num dilema ético profundo: denunciar seria, para mim, inaceitável; ignorar, impossível. As tentativas de diálogo direto revelaram-se inúteis:
“Quem mandava era ele. Que não me preocupasse…”
Esta tensão, naturalmente, afetou-me ao ponto de recorrer ao meu médico de família, procurando alívio para o desconforto emocional e físico que se instalava. Ainda assim, a solução para tal dilema parecia escapar ao alcance da razão e da experiência.
Frente ao impasse, recorri ao que sempre foi para mim fonte de conforto e orientação: a fé. Num dia comum, sem planeamento, dirigi-me à igreja matriz de Nisa, em busca daquela paz que só o silêncio sagrado pode oferecer.
Cheguei no início de uma missa, onde crianças da catequese participavam ativamente.
Fui acolhido de imediato por uma amiga que me convidou a fazer uma das leituras. Aceitei talvez por hábito, talvez por sentir naquele gesto um convite maior. A participação na celebração, inesperada, encheu-me de uma sensação de acolhimento e de pertença.
Ser escolhido entre tantos, naquele momento, pareceu-me um sinal, uma resposta silenciosa à minha inquietação.
Durante o ofertório, duas a duas, as crianças aproximavam-se da assembleia: uma pedia a oferta, outra entregava, a cada pessoa uma tira de papel com uma mensagem escrita à mão.
Recebi a minha e ao ler as palavras nela inscritas “Nada temas. Eu estou contigo. Jesus Cristo” senti uma onda de serenidade e esperança.
Foi como se, naquele gesto simples e naquela frase, tivesse encontrado a resposta que procurava, a confirmação de que não estava sozinho perante os meus dilemas e como a fé, em momentos de tormenta, pode ser farol e abrigo.
Este episódio marcou-me profundamente.
Recordo que, muitas vezes, buscamos soluções em conselhos, estratégias ou racionalizações, esquecendo que há aspetos da vida humana que transcendem o entendimento e exigem confiança - uma confiança que, para quem crê, se fundamenta na certeza daquilo que Jesus Cristo disse aos Apóstolos: Pedi e recebereis.
A mensagem que a criança me entregou naquela igreja não resolveu de imediato os meus problemas, mas deu-me luz para continuar, coragem para não ceder ao desespero e serenidade para agir de acordo com os meus princípios.
Coincidência ou não, o assunto ficou resolvido, passado pouco tempo.
A vida fala-nos por vezes através de sinais simples. Cabe-nos estar atentos e de coração aberto, para os reconhecer e acolher. Que nunca nos falte a coragem para pedir, nem a humildade para receber.
José Coelho
(Texto e foto da tirinha de papel que guardo desde aquele dia).
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