quinta-feira, 11 de setembro de 2025

“Herrar é Umano”


Hoje veio-me à memória uma história escabrosa de um furto de armamento em determinada unidade onde eu prestava serviço que originou um exaustivo inquérito para apuramento de responsabilidades. Logicamente que por A + B se concluiu que a culpa não era do comandante da unidade, muito menos de qualquer outro graduado, tendo recaído a culpa sobre o praça que desempenhara funções de quarteleiro de dia, algures por aquela data. Difícil conclusão, se tivermos em conta que nunca ninguém conseguiu apurar em que dia exato de semana ou de mês, o armamento tinha desaparecido!

Então e por não haver "culpado" de menor graduação lá papou o indignado soldado quarteleiro-de-dia a "castanha" que, pior do que a gritante injustiça, se sentiu de tal modo humilhado que no dia seguinte ao término do castigo requereu oficialmente o seu desejo de abandonar definitivamente a profissão que, quando ainda era um jovem, elegera. E voltou para a sua agricultura onde o trabalho é mais duro e cansativo, mas onde também não há injustiças de tamanha envergadura.

Mas existem outras iguais ou parecidas que passam despercebidas apesar de serem recorrentemente cometidas.

Toda a gente sabe que as atividades policiais das forças de segurança e similares, sejam elas quais forem, nunca param dia e noite, porque o serviço tem de ser assegurado 24 sobre 24 horas de 1 de Janeiro a 31 de Dezembro seja Natal, Páscoa, outros quaisquer feriados ou fins-de-semana.

Enquanto o cidadão comum em dezembro consoa feliz o seu natalício bacalhau e as filhós no aconchego familiar ou degusta depois na primavera o pascal cabrito assado no forno e se diverte, outros cidadãos exatamente iguais a eles, mas menos comuns nos direitos e deveres, têm, nessas noites e nesses dias, de permanecer nas ruas, estradas, esquadras e postos, prontos para acorrer a qualquer anormalidade no desempenho da complexa profissão que exige deles disponibilidade permanente e total.

Ah pois… E coisa… Foram para lá porque quiseram, são pagos para isso, estão lá porque querem, se não gostam vão-se embora…

É fácil tirar conclusões que não passam de mera retórica. Difícil é conseguir perceber-se o respeito que merece o desempenho de tão exigentes e nada fáceis funções. Mais difícil ainda é perceber a intolerância geral perante qualquer falha, erro ou omissão cometidos por algum agente da autoridade, deixando de se ter em conta que sob cada farda se encontra também um falível Ser Humano sujeito a cometer faltas ou omissões, o qual, como qualquer outro, deveria sempre também ser merecedor de mais humana tolerância.

Já fui um deles.

Por isso os compreendo tão bem e os defendo publicamente com unhas e dentes. Porque eu também seguramente errei inadvertidamente algumas vezes. Quem é que nunca erra? Só posso garantir com absoluta certeza que nunca agi dessa forma consciente e deliberadamente. Nem para exceder o uso da minha autoridade, nem para impor a minha vontade, nem por simples maldade, arrogância, desleixo ou má-fé.

Errei, porque estava a trabalhar. Errei, porque estava no desempenho das minhas funções legais nas quais fui, como todos os meus camaradas de ontem, de hoje e do futuro, publicamente investido. E porque estava decerto também a cuidar do superior interesse da comunidade ou de alguém que individualmente necessitava dessa ajuda. Errei porque sou humano e como tal imperfeito. Como todos vós que estais a ler isto neste momento e também todos aqueles que apregoam moralidade mas não sabem ver-se ao espelho nem pôr a mão na consciência.

Todos erramos.

Mas também todos temos os mesmos direitos perante a lei.

A terminar poderia referir a minha extensa folha de serviços prestada à Causa Pública devidamente reconhecida por quem de direito. Poderia, mas não vou referi-la. Apesar de me haver sensibilizado muito o seu reconhecimento, nunca me envaideci. Senti sempre e apenas ter cumprido o meu dever no desempenho das obrigações profissionais em que estava investido.

Bastam-me a consciência tranquila e a paz de espírito que me proporcionam a mais absoluta serenidade no viver de cada dia. Mas continuo a ser e serei sempre solidário com quem por lá anda, 24 sobre 24 horas, 365 dias por ano, a dar o seu melhor pela segurança e tranquilidade de todos e cada um de nós.

José Coelho