quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Entre o passado e o presente


Viver nesta era de contrastes é, por vezes, navegar um mar revolto de incertezas e inversões de valores. Muitos dos princípios que foram outrora ensinados com esmero, transmitidos de geração em geração como herança valiosa - honestidade, respeito, amizade e humildade - parecem hoje constantemente alvo de interrogações, revisões e, por vezes, desprezo.

O que ontem era regra, hoje é visto como desuso; o que era certo, tornou-se antiquado.

É estranho, quase surreal, perceber que a estrutura moral cuidadosamente construída pelos que vieram antes de nós, alicerçada no amor, na disciplina e na dignidade, se encontra, não raro, questionada ou desvalorizada pelas gerações que ajudámos a formar. Não se trata de nostalgia que enaltece o passado e despreza o presente, mas sim de constatar que, no meio do atual excesso de facilidades materiais, escasseiam os valores intangíveis - aqueles que não se compram nem se impõem, mas que se cultivam e se transmitem pelo exemplo.

Nunca foi fácil trilhar o caminho da retidão. Muitos dos que, vindo de condições modestas, ousaram sonhar e trabalhar arduamente para melhorar de vida, conhecem de perto as dificuldades, os obstáculos e as provas de resistência que a vida impõe. A inveja, o comentário depreciativo, a falta de reconhecimento do esforço são pedras no caminho de quem se recusa a ceder aos atalhos da desonestidade ou da mediocridade.

O sentimento de justiça e a coragem de enfrentar as adversidades são legados dos que, mesmo sem títulos nem riquezas, nos ensinaram que dignidade não tem preço.

A sociedade de hoje, abundante em quase tudo o que antes nos faltava, sofre, porém, de uma carência profunda das virtudes de outrora: generosidade, solidariedade, respeito mútuo. Observa-se, nas mais altas esferas do poder e nas relações quotidianas, o prevalecer da corrupção, do egoísmo e da competição desenfreada, numa inversão de valores que assusta e entristece.

No convívio familiar e no círculo de amizades, ainda é possível encontrar quem se guie por princípios sólidos, mas são, cada vez mais, exceção. A celebração do sucesso alheio foi substituída pela comparação invejosa; o esforço pelo mérito foi trocado pela busca do “atalho” e do privilégio.

Contudo, há algo intrínseco àqueles que foram educados a olhar nos olhos, a não virar as costas à verdade, a não pactuar com a injustiça: a inabalável firmeza de carácter. É esta postura, herdada e praticada, que sustenta a dignidade diante das adversidades e que resiste à tentação de moldar-se aos caprichos do tempo presente apenas para ser aceite ou “moderno”.

Não é a idade que determina o valor dos princípios, nem é a mudança dos costumes que desautoriza a retidão. Aqueles que permanecem fiéis aos seus valores, que recusam entrar no jogo do facilitismo e da falta de ética, continuam a ser farol numa época de nevoeiro moral.

Por mais que o mundo mude, por mais que a honestidade pareça fora de moda, cada indivíduo que persiste em ser exemplo de integridade cumpre um papel silencioso, mas fundamental, na preservação da esperança de que, um dia, o bom-senso, a fraternidade e o respeito voltem a ser norma e não exceção.

Assim, não há vergonha nem erro em ser, fazer e pensar conforme o que foi aprendido dos melhores mestres: os que, com humildade e sabedoria, ensinaram a dignidade do trabalho, a coragem de enfrentar injustiças e a beleza serena da honestidade. Porque, no fim, o tempo é ponte, não muro e os valores duradouros, quando praticados, são sementes que nunca deixam de florescer, mesmo nas épocas mais áridas.

José Coelho