O que ontem era regra, hoje é
visto como desuso; o que era certo, tornou-se antiquado.
É estranho, quase surreal,
perceber que a estrutura moral cuidadosamente construída pelos que vieram antes
de nós, alicerçada no amor, na disciplina e na dignidade, se encontra, não
raro, questionada ou desvalorizada pelas gerações que ajudámos a formar. Não se
trata de nostalgia que enaltece o passado e despreza o presente, mas sim de
constatar que, no meio do atual excesso de facilidades materiais, escasseiam os
valores intangíveis - aqueles que não se compram nem se impõem, mas que se
cultivam e se transmitem pelo exemplo.
Nunca foi fácil trilhar o caminho
da retidão. Muitos dos que, vindo de condições modestas, ousaram sonhar e
trabalhar arduamente para melhorar de vida, conhecem de perto as dificuldades,
os obstáculos e as provas de resistência que a vida impõe. A inveja, o
comentário depreciativo, a falta de reconhecimento do esforço são pedras no
caminho de quem se recusa a ceder aos atalhos da desonestidade ou da
mediocridade.
O sentimento de justiça e a
coragem de enfrentar as adversidades são legados dos que, mesmo sem títulos nem
riquezas, nos ensinaram que dignidade não tem preço.
A sociedade de hoje, abundante em
quase tudo o que antes nos faltava, sofre, porém, de uma carência profunda das
virtudes de outrora: generosidade, solidariedade, respeito mútuo. Observa-se,
nas mais altas esferas do poder e nas relações quotidianas, o prevalecer da
corrupção, do egoísmo e da competição desenfreada, numa inversão de valores que
assusta e entristece.
No convívio familiar e no círculo
de amizades, ainda é possível encontrar quem se guie por princípios sólidos,
mas são, cada vez mais, exceção. A celebração do sucesso alheio foi substituída
pela comparação invejosa; o esforço pelo mérito foi trocado pela busca do
“atalho” e do privilégio.
Contudo, há algo intrínseco
àqueles que foram educados a olhar nos olhos, a não virar as costas à verdade,
a não pactuar com a injustiça: a inabalável firmeza de carácter. É esta
postura, herdada e praticada, que sustenta a dignidade diante das adversidades
e que resiste à tentação de moldar-se aos caprichos do tempo presente apenas
para ser aceite ou “moderno”.
Não é a idade que determina o
valor dos princípios, nem é a mudança dos costumes que desautoriza a retidão.
Aqueles que permanecem fiéis aos seus valores, que recusam entrar no jogo do
facilitismo e da falta de ética, continuam a ser farol numa época de nevoeiro
moral.
Por mais que o mundo mude, por
mais que a honestidade pareça fora de moda, cada indivíduo que persiste em ser
exemplo de integridade cumpre um papel silencioso, mas fundamental, na
preservação da esperança de que, um dia, o bom-senso, a fraternidade e o respeito
voltem a ser norma e não exceção.
Assim, não há vergonha nem erro
em ser, fazer e pensar conforme o que foi aprendido dos melhores mestres: os
que, com humildade e sabedoria, ensinaram a dignidade do trabalho, a coragem de
enfrentar injustiças e a beleza serena da honestidade. Porque, no fim, o tempo
é ponte, não muro e os valores duradouros, quando praticados, são sementes que
nunca deixam de florescer, mesmo nas épocas mais áridas.
José Coelho
