sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Crónica de um quintal habitável


Na quietude do meu quintal pulsa um ecossistema invisível aos olhos apressados do mundo. Desde que em 1993 habitei definitivamente a casa onde nasci e por decisão do meu meu pai teve de ser para mim, descobri que é pouso preferido para toda a espécie de passarada, um palco de encontros e desencontros orquestrado ao sabor das estações.
Ano após ano as carriças voltaram com fidelidade quase comovente, escolhendo dois pontos distintos para os seus ninhos: outrora no velho forno do quintal, antes de o robusto portão de ferro lhe vedar a entrada, e mais tarde na trepadeira da varanda, enredadas entre folhas e caules numa arquitetura secreta.
Não faltam provas, pois as fotografias guardam esses instantes de vida em miniatura.
Os pintassilgos, por sua vez, já se deixaram seduzir pela roseira trepadeira da frente da casa e, com o passar do tempo, elegeram a latada como local predileto para perpetuar a dinastia.
Os verdelhões, mais reservados, preferem a segurança das copas das oliveiras, enquanto os melros entoam cantigas matinais resguardados pela folhagem do limoeiro.
As rolas bravas, com o seu andar discreto, optam pela laranjeira, onde o aroma dos citrinos se mistura à tessitura dos ninhos.
Não falta originalidade à escolha dos tentilhões: um casal encontrou abrigo noturno na varanda do primeiro andar; um deles pernoita sobre o braço da lanterna do alpendre, o outro no parapeito de uma das janelas.
Essas pequenas criaturas, comodamente instaladas, tornaram-se presença habitual assim que anoitece. Fugindo ao frio do inverno ou ao calor do verão, ali permanecem e faço questão de não os perturbar mais do que o estritamente necessário. Ainda assim, basta um rumor de porta para fugirem para o telhado vizinho, regressando imediatamente aos seus poisos logo que o cenário volta à calma.
Não faltam episódios de resistência e negociação, como quando há dois anos uma senhora cegonha decidiu que uma das chaminés da nossa casa seria local ideal para nidificar. Apesar da admiração que nutro por estas viajantes, não pude permitir: o risco de lixo e danos no telhado falou mais alto.
A cada tentativa, lá estava eu, batendo tampas de tachos e vigiando, até que desistiu, deixando no telhado os vestígios de um projeto quase levado a termo.
A primavera passada foi, sem dúvida, dos pardais. Persistentes e engenhosos, decidiram que o espaço atrás do motor do ar condicionado seria casa à medida do seu apetite por aventura. Entre tubos e paredes, fizeram vários intentos de construir ali um lar.
Tantas vezes quantas lhes desmontei a pequena estrutura e tantas quantas eles voltaram a experimentar. No fim, julguei ter vencido o duelo.
Mas foi pura ilusão.
Mais tarde o mistério desvendou-se quando o esquentador da cozinha passou a desligar-se sem aviso. Suspeitei de gases acumulados, recorri a arejar os espaços, até que a dúvida me levou a examinar o tubo exaustor.
E eis a revelação: um volumoso ninho de pardais inacabado, fruto talvez da ausência da casa durante uma viagem, quase obstruía a passagem do ar.
Rapidamente retirei o feno e instalei uma grelha protetora, encerrando assim mais um capítulo desta convivência entre engenhosidade e teimosia.
Agora resta-me aguardar: qual será o próximo alvo? É um jogo de estratégia e adaptação, de respeito mútuo e pequenas cedências.
No fundo, esta relação com a passarada é feita de histórias partilhadas ora alegres, ora laboriosas, testemunho vivo de como um simples quintal pode ser o universo inteiro para quem sabe observar.
Texto e foto