segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Intranquilidade


Nasci e cresci num período muito complicado para quase toda a gente em Portugal. Os filhos – fui um deles logo aos onze anos de idade – tornavam-se homens mais cedo quase por obrigação para poderem ajudar em casa com as despesas.
Consequência direta do conflito que mergulhou o mundo em guerra, e, mais próxima ainda de nós, da guerra civil espanhola, as populações sobreviviam precariamente daquilo que conseguiam cultivar e do racionamento imposto pelos governos de então, dada a escassez de um modo geral, de bens alimentares disponíveis.
A pobreza reinava por isso pelas aldeias e bairros periféricos das cidades. Ajudar os pais nas tarefas diárias ou até mesmo trabalhar para trazer algum dinheiro para casa era uma realidade para a maioria das crianças.
Muitas delas nem tinham a oportunidade de ir à escola porque a família estava sempre em primeiro lugar, as necessidades económicas falavam mais alto e a educação acabava por ficar para segundo plano.
A vida era dura e as escolhas limitadas. Ainda hoje conto as muitas histórias que ouvi da boca dos meus avós e de outros anciãos, eu próprio vivi naquela época impressionante em que a resiliência e a capacidade de adaptação foram fundamentais para sobreviver.
A família era o centro de tudo e os mais novos sacrificavam os seus próprios sonhos e oportunidades para ajudarem os pais e os irmãos. Foi uma época diferente em que a precaridade de quase tudo promovia valores e prioridades completamente distintas das de hoje.
Sinto desde que comecei a ter noção dessas inúmeras dificuldades quotidianas, uma profunda admiração pela força e determinação das pessoas que passaram por tudo isso, mas conseguiram superar tantas dificuldades.
As suas histórias que nunca me canso de lembrar são uma parte importante da nossa memória coletiva. Por isso sinto também que falar e escrever acerca delas nos faz refletir sobre como as coisas mudaram, mas também sobre como alguns desafios persistem, embora de formas diferentes.
A minha geração atenta ao mundo e à quantidade de conflitos em curso somados aos que já se anunciam no horizonte, sente-se intranquila porque as peças do xadrez onde se jogou a sua infância começam a alinhar-se perigosamente de novo.
Oxalá estejamos equivocados, porque a geração atual a quem nada faltou nunca, não está minimamente preparada para aquele caos que diariamente é plantado diante dos nossos olhos em todos os noticiários.
Aquilo – tomemos muita atenção – não é ficção.

José Coelho
Texto e foto