Sete-Rios, com a
sua estação intermodal, é muito mais do que um simples ponto de passagem na
cidade de Lisboa. É um microcosmo do mundo, onde diariamente milhares de
pessoas de todas as nacionalidades se cruzam, vindas e indo para todos os
cantos do país e, quem sabe, do mundo. O fluxo incessante de viajantes,
trabalhadores, turistas e residentes faz desta estação um verdadeiro palco de
histórias singulares, repleto de diversidade na oferta de destinos e na riqueza
humana que ali se encontra.
Foi numa tarde quente em finais de verão que tive a oportunidade de observar uma dessas pequenas narrativas urbanas que, de tão corriqueiras, quase passam despercebidas. Eu e a minha companheira, após mais uma viagem, procurámos refúgio no movimentado bar do lado oposto da gare, à espera da hora para o regresso a casa. Mal nos sentámos, fomos abordados por vários indivíduos que, com semblantes estudados e vozes lamuriosas, pediam insistentemente uma moeda, recorrendo a frases já ensaiadas como:
“Ainda hoje não comi nada!”.
A frequência desses pedidos, a variedade de quem os faz – homens e mulheres, de diferentes origens – e a forma como se apresentam, com roupas ora asseadas, ora desleixadas, sugerem mais uma encenação do que um verdadeiro estado de indigência.
Para muitos, ali, pedir tornou-se um modo de vida, e não um último recurso de sobrevivência.
Enquanto esperávamos, uma cena chamou particularmente a minha atenção. Na mesa ao lado, duas senhoras, de ar afável, testemunharam a minha recusa educada mas firme a um destes pedintes. Talvez incomodadas pela minha resposta, prontamente chamaram o homem, oferecendo-lhe não uma moeda, mas uma sanduíche e uma bebida. O gesto, carregado de boas intenções, foi recebido pelo destinatário com um desinteressado “preferia uma moedinha”.
Pegou nos alimentos, afastou-se e, sem sequer abrir o que lhe fora oferecido, depositou tudo no lixo antes de desaparecer escadas abaixo, em direção à gare.
O desconsolo das
senhoras foi evidente, expressando-se num “oooohhh” coletivo, enquanto um
funcionário do bar, com sotaque brasileiro, lhes tentava consolar: “São uns
cafagestxis…”.
No entanto, a senhora que havia tomado a iniciativa do gesto solidário, talvez para se confortar, concluiu:
“Fiz o meu dever e isso é o que me importa.”
Este episódio, tão comum em grandes cidades, levanta questões sobre a fronteira entre a genuína necessidade e a manipulação das boas vontades alheias. Numa sociedade cada vez mais urbanizada e multicultural, a compaixão é posta à prova diariamente. Se, por um lado, é fundamental manter o respeito e o amor pelo próximo, por outro, é igualmente importante não se deixar enganar por quem faz da caridade alheia um modo de vida.
A minha postura continua a ser de respeito pelo outro, procurando sempre ajudar dentro do que é possível e sensato. No entanto, aprendi a ser cauteloso, a não ceder à primeira abordagem e, sobretudo, a distinguir entre quem realmente precisa e quem apenas explora a generosidade dos outros.
Sete-Rios, com o seu constante cruzamento de vidas, é um espelho das complexidades humanas: solidariedade, desilusão, esperança e sagacidade. No fundo, cada viagem, cada encontro, é uma oportunidade de aprender mais sobre os outros – e sobre nós próprios. E, tal como a senhora da esplanada, termino com a certeza de que importa, acima de tudo, agir de acordo com a nossa consciência, sem jamais perder a humanidade, mas também sem ingenuidade.
José Coelho
