sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Memórias de um "peixe miúdo"


O presente escrito é um testemunho pessoal e uma profunda reflexão sobre justiça, humanidade e o papel do indivíduo numa comunidade marcada por dificuldades sociais, suspeitas e transformações políticas.
As linhas que se seguem dão voz a alguém que, sendo embora visto por muitos como "peixe miúdo", sempre possuiu uma consciência social e ética marcadas pelo respeito aos mais humildes e pela defesa dos direitos daqueles que, durante décadas, foram esquecidos.
As motivações que me moveram na ajuda aos trabalhadores rurais da freguesia nessa conturbada época nunca tiveram qualquer filiação partidária ou interesse oculto. O meu envolvimento com o sindicato destas pessoas nunca teve qualquer conotação política.
Limitava-se a prestar-lhes auxílio na escrita devido à sua incapacidade por motivo de os dirigentes serem todos analfabetos, de origem humilde mas honrada, em tudo semelhante à do meu próprio pai.
Essa ajuda foi apenas e só um ato de humanidade e solidariedade.
Desde quando ajudar alguém é crime?
Essa pergunta ecoa ainda hoje na minha memória como um lamento contra tamanha injustiça de ser acusado e olhado com desconfiança simplesmente por apoiar quem precisava.
Aqueles trabalhadores rurais só procuravam defender os seus interesses e de todos os outros, através de um sindicato.
Nunca pertenci a qualquer partido político, mas, mesmo que tivesse pertencido, estaria apenas a exercer um direito já então constitucionalmente reconhecido. O que realmente se passou contra mim, foi preconceito puro e desinformação.
O "senhor doutor da alfândega" que eu acompanhava sempre era alguém que inspirava algum respeito aos seus subordinados e falava abertamente sobre os paridos políticos, os direitos dos trabalhadores e a importância da sindicalização, tendo sido um dos principais impulsionadores da presença sindical nesta freguesia.
Quero contudo sublinhar que pelo facto de o acompanhar e ser seu amigo, não significava necessariamente partilhar das suas convicções políticas, até pela minha falta de formação académica.
Sabia lá eu em 1974 o que era “essa coisa” da política. E passados mais de cinquenta anos, pouco mais sei.
O ambiente de hipocrisia que reinava em redor do doutor, onde os sorrisos eram forçados e a oposição inexistente por falta de coragem, a hostilidade incapaz de ser direcionada a ele acabava por recair sobre mim, o peixe miúdo, mais fácil e vulnerável, transformado injustamente em bode expiatório.
Foi precisamente nessa data que a nova lei que substituiu o antigo sistema das caixas de previdência social de 1962 e obrigava todas as entidades patronais a inscreverem os seus trabalhadores na Segurança Social, garantindo-lhes direitos como a pensão de reforma a partir dos 65 anos e abonos de família para os filhos dos trabalhadores no ativo até determinada idade.
Uma cláusula particularmente importante permitia que qualquer trabalhador, com mais de cinco anos de serviço para uma entidade patronal e de onde tivesse saído há menos de cinco anos, pudesse requerer a reforma, bastando apresentar testemunhas idóneas e preencher formulários próprios.
Era a mudança revolucionária, que finalmente reconhecia e premiava vidas inteiras de trabalho.
Não sei precisar o número da lei, mas tenho a certeza de que foi publicada entre finais de 1974 e inícios de 1975 sendo a precursora da obrigatoriedade dos descontos para a Segurança Social.
Andei de casa em casa e de porta em porta a informar um por um os idosos que conhecia e sabia terem direito a pedirem as suas merecidas reformas. Preenchi-lhes gratuitamente os requerimentos, fui a testemunha número um de todas as declarações que atestavam essa verdade e fui com o senhor doutor da alfândega no carro dele, entregar todos os processos em mão, a Portalegre.
Pouco tempo depois foram todos notificados do deferimento de todos os pedidos de reforma e do montante a receberem desde o dia imediato à entrada em vigor da referida lei.
Alguns milhares de escudos quase todos.
Reconheço com muito orgulho que o meu maior “crime” aos olhos dos patrões mal-intencionados, foi ter ajudado a garantir o direito à reforma a quem a merecia, porque lhes custou algumas centenas de milhares de escudos de reembolsos obrigatórios à nóvel Segurança Social.
Foi só menos um carro de luxo que compraram e quem os serviu durante quase toda a sua vida ficou com aquilo que lhes pertencia e lhes assegurava uma velhice menos penosa.
Este testemunho pretende retratar a luta pela dignidade e justiça social numa pequena comunidade rural, num período de grandes transformações.
É também um lamento pelos mal-entendidos e injustiças sofridos por quem ousou ser solidário, num tempo em que a solidariedade ainda era vista como um luxo por alguns.
Acima de tudo é um apelo à memória e consciência coletiva, para que jamais se esqueça que ajudar o próximo nunca deve ser considerado um crime, mas sim um ato de coragem e de humanidade.
Foto Estúdio Cardinho Ramos.
Castelo de Vide ano de 1974

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Memórias de quando foi conquistada a Liberdade

Foto Maria Coelho

O ano de 1974 marcou um ponto de viragem irreversível na história recente de Portugal. O regresso da guerra associado à Revolução dos Cravos, trouxe um fluxo de jovens soldados e famílias desmembradas, muitos deles marcados física e psicologicamente pelos horrores coloniais. Portugal, país outrora preso à imobilidade do Estado Novo, encontrava-se agora à beira de um precipício social e político: pairava no ar o aroma inebriante da liberdade, mas também a incerteza do que fazer com ela.

As ruas enchiam-se de gente. Homens, mulheres, jovens e crianças, todos, ou quase todos, queriam sentir a vitória da liberdade recém-conquistada. Recordo-me da Avenida da Liberdade e do Rossio inundados por multidões, slogans apaixonados estampados em cartazes improvisados, punhos erguidos e cravos vermelhos. Era a primeira vez, para muitos, que a palavra “manifestação” deixava de ser um sussurro perigoso para se transformar num grito de pertença. Cantava-se "O povo unido jamais será vencido", e, por instantes, acreditava-se realmente que a utopia estava ao virar da esquina.

A atmosfera era de celebração, mas também de explosão de emoções reprimidas. As pessoas agitavam-se, falavam alto, discutiam política até à exaustão. Nas praças, nos cafés, nos autocarros, a discussão era permanente – euforia quase infantil de quem descobre o seu próprio poder social.

Contudo, a exaltação não tardou a dar lugar a uma outra face da transição. O entusiasmo pela liberdade abriu espaço à perseguição, por vezes cega, aos antigos agentes do regime. Antigos membros da PIDE, funcionários administrativos, empresários ligados ao regime eram publicamente expostos, enxovalhados, alguns humilhados sem direito à defesa. Sentia-se uma ambivalência amarga nesse processo: compreendia-se a vontade de justiça, mas a linha entre justiça e vingança esbateu-se perigosamente. O "bom povo português", tantas vezes apático sob a ditadura, parecia agora em busca de alvos para descarregar décadas de frustração.

Também os chamados “ricos” foram alvo de desconfiança. Havia uma suspeição generalizada sobre quem tinha posses, como se a riqueza fosse sempre sinal de conivência com o regime deposto. Lembro-me de ver portas marcadas, rumores de expropriações, jornais populares a agitarem histórias de corrupção. Alguns inocentes foram envolvidos neste turbilhão, outros nem tanto. A justiça popular era apressada e nem sempre justa.

O que mais me impressionou neste período foi a velocidade estonteante das mudanças. Portugal passou, num ápice, de uma sociedade resignada e temerosa para uma outra onde tudo era discutido e contestado. O silêncio cúmplice que pairava nas famílias e nos locais de trabalho foi substituído por debates inflamados e, por vezes, pela intolerância ao contraditório. Senti que, para muitos, a liberdade era confundida com licença para os excessos. O país parecia querer recuperar, em meses, décadas perdidas de participação cívica.

Multiplicaram-se os sindicatos, as comissões de trabalhadores, as assembleias de bairro; surgiam jornais e panfletos a cada esquina. O entusiasmo trouxe vitalidade à vida pública, mas também alguma ingenuidade. Assistia-se a uma corrida para ocupar cargos e usufruir de pequenas parcelas de poder recém-descoberto, nem sempre com sentido de responsabilidade ou de justiça.

Nesse caldo fervilhante, apareceram também os oportunistas: os ‘xicos-espertos’ que souberam ler melhor do que ninguém a vontade de mudança das massas. Havia líderes carismáticos, mas também manipuladores hábeis, prontos a transformar o fervor popular em capital político próprio. Muitos dos “heróis” da revolução revelaram-se tão humanos e falíveis como os antigos dirigentes.

Vi vizinhos transformarem-se em acusadores implacáveis, antigos amigos tornarem-se estranhos de um dia para o outro. A ingenuidade coletiva, alimentada pela esperança, tornou-se terreno fértil para promessas fáceis e soluções simplistas. Tínhamos, finalmente, voz, mas nem sempre sabíamos como usá-la.

Envolvido por esta atmosfera de entusiasmo e desorientação, procurei o meu lugar num novo Portugal que se reinventava. Sentia orgulho por pertencer a uma geração que ousou sonhar com um país diferente, mas também tristeza ao ver amigos divididos por ideologias, famílias desavindas por escolhas políticas. Se por um lado a liberdade era uma conquista inegociável, por outro, ela vinha carregada de responsabilidades para as quais nem todos estavam preparados.

A política, tão desejada, tornou-se rapidamente um campo minado de rivalidades e decepções. Aprendi a desconfiar do excesso de certezas, a valorizar o diálogo e a pluralidade, e a perceber que as grandes mudanças raramente são lineares ou justas para todos. Em cada esquina, em cada olhar, sentia-se a ansiedade de um povo que desejava tudo e receava perder tudo novamente.

O pós-25 de Abril representou, sem dúvida, um salto gigantesco na história portuguesa. Mas a euforia inicial diluiu-se, e com o tempo foram-se revelando as fragilidades e as desigualdades que a liberdade, por si só, não consegue sanar. Persistem até hoje as feridas das injustiças, os ressentimentos de quem perdeu e as frustrações dos que esperavam mais.

Como autor participante e observador, retenho uma nostalgia agridoce: orgulho pelo caminho percorrido, mas também uma consciência crítica dos riscos da memória seletiva e das tentações simplistas. A liberdade conquistada é, acima de tudo, um processo inacabado e talvez o maior legado desse tempo seja a responsabilidade de nunca a tomarmos por garantida.

José Coelho

Quantos anos temos?


Temos a idade em que as coisas
são vistas com mais calma,
mas com o interesse de seguir crescendo.

Temos os anos em que os sonhos se começam
a acariciar com os dedos e as ilusões
se convertem em esperança.

O que importa se fazemos vinte,
quarenta ou setenta?
O que importa é a idade que sentimos.

Temos os anos que necessitamos
para vivermos livres e sem medos.

Para seguirmos sem temor pela trilha,
pois levamos conosco a experiência adquirida
e a força dos nossos anseios.

Quantos anos temos? Isso a quem importa?
Temos os anos necessários
para perdermos o medo e fazermos o que queremos.
José Saramago
(Adaptado no plural)

Foto de hoje, José Coelho com Maria Coelho

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

O Papel das candidaturas da oposição nas Eleições Autárquicas


 REFLEXÃO SOBRE DEMOCRACIA E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

Nas Eleições Autárquicas, a apresentação de candidaturas à presidência de qualquer autarquia por partidos políticos da oposição deve ser encarada como um processo natural e saudável do funcionamento democrático. Longe de constituir uma afronta ao poder instituído, esta prática representa uma das bases fundamentais da democracia: o direito de todos os cidadãos e forças políticas participarem livremente na escolha dos seus representantes.

COMPETIÇÃO DEMOCRÁTICA E RENOVAÇÃO POLÍTICA

A existência de múltiplas candidaturas é sinal de vitalidade democrática. A competição eleitoral permite que diferentes visões, programas e propostas sejam apresentados à população, promovendo o debate público e a possibilidade de renovação política. É através deste confronto de ideias que se garante maior transparência, responsabilização dos eleitos e envolvimento dos cidadãos na tomada de decisões locais.

A NORMALIDADE DA ALTERNÂNCIA

A alternância no poder é um dos princípios estruturantes de qualquer democracia madura. Ver as candidaturas da oposição como uma ameaça ao status quo revela uma perspetiva limitada da política, que ignora o papel essencial da diversidade de opiniões e da fiscalização do poder. A pluralidade de candidaturas não fragiliza as instituições: pelo contrário, fortalece-as, ao garantir que o poder é sempre escrutinado e que existem alternativas viáveis para a governação.

Respeito e Maturidade Democrática

Uma sociedade democrática exige respeito mútuo entre todos os atores políticos. Considerar a participação da oposição como uma afronta demonstra falta de maturidade cívica e política. É fundamental que o debate eleitoral decorra num ambiente de respeito pelas regras democráticas, onde a divergência é aceite e valorizada como motor de progresso.

Conclusão

As candidaturas da oposição nas Eleições Autárquicas são, acima de tudo, uma ferramenta essencial ao funcionamento da democracia. Garantem que todos têm voz, promovem a participação e fortalecem as autarquias, tornando-as mais representativas e próximas dos cidadãos. A democracia constrói-se com pluralidade, abertura e respeito pelas diferenças. É isso que torna o processo eleitoral verdadeiramente legítimo e enriquecedor para a sociedade.

Beirã, 1 de outubro de 2025

José Coelho

Foto Maria Coelho

Testemunho

Foto cortesia de Alexandra Gordo

Apoiamos incondicionalmente o Jorge Lourenço Marques para Presidente da Câmara pela Candidatura Marvão Acima de tudo, e a Sandra Paz para Presidente da Junta da minha Freguesia pela Candidatura Beirã Acima de tudo, do Partido Socialista.
Assinado:
01 de outubro de 2025

Écloga


Na ribeira que secou
Bebia o gado que eu tinha;
Quando chegava à noitinha,
A voz das águas chamava,
E o rebanho que pastava
Deixava os tojos e vinha.

Eu próprio molhava as mágoas
Na pureza da nascente;
Metia as mãos docemente
Na limpidez da frescura,
E as caricias da corrente
Davam-me paz e ternura.

O gado, farto, bebia;
E eu deixava-me correr
Naquele suave prazer
Que me levava consigo...
Eu não tinha que fazer,
E o gado tinha pescigo.

A noite, então, vinha mansa
Cobrir a lã das ovelhas;
Era um telhado de telhas
Furadas ou embutidas
De luzes muito vermelhas
Por todo o céu repartidas.

E aquela viva irmandade
Do rebanho e do zagal
Era ali tão natural
Que apagava dos sentidos
A saudade do curral
Feita de sono e balidos.

Mas a ribeira secou.
Não sei que praga lhe deu
Que no leito onde correu
Há pedras e maldição...
E o meu rebanho morreu
De sede e de mansidão.

Miguel Torga


Foto José Coelho

Tempo de mudança