domingo, 2 de agosto de 2026

Para quem gosta do que escrevo

Hoje partilho convosco este texto que me é muito querido. Fala da vida, da memória e do amor que permanece. Espero que vos inspire tanto quanto me inspirou a escrevê-lo.

A parte que ninguém esquece

Talvez um dia eu me esqueça. Dos nomes que hoje me chegam com nitidez, como se cada sílaba tivesse o peso de uma vida inteira. Dos lugares onde fui feliz sem saber que era felicidade; dos caminhos de terra onde deixei pegadas que o vento tratou de levar; dos portões que abri e fechei; dos bancos onde me sentei a ver o tempo passar, como quem observa um rio que nunca repete a mesma água. Dos porquês, das razões que me moveram, dos sonhos que me empurraram, das dores que me ensinaram a ser mais inteiro.

Talvez as minhas mãos já não saibam onde pousar. Talvez tremam, talvez procurem, talvez se tornem estrangeiras para mim. Mãos que outrora seguraram ferramentas, que colheram frutos, que ampararam vidas, que escreveram histórias, que tocaram rostos com a delicadeza de quem sabe que cada gesto pode ser o último.

Talvez os meus olhos vagueiem por rostos familiares sem encontrarem abrigo no reconhecimento. Talvez veja a minha gente como quem vê sombras ao fim do dia: formas que o coração conhece, mas a memória já não alcança.

Talvez eu não saiba mais quem sou. Talvez o meu nome se dissolva como um eco que se perde na serra. Talvez a minha história se torne um livro fechado que já não consigo abrir.

Mas, ainda assim, terá valido a pena.

Porque a história que vivemos não depende apenas das lembranças que guardamos. Ela mora também nos outros. Mora em quem ouviu o meu riso e se sentiu mais leve, como se o mundo tivesse ficado um pouco menos pesado. Mora em quem chorou comigo e descobriu que a dor partilhada é uma ponte que nos salva. Mora em quem toquei com presença, com cuidado, com verdade, essa verdade que não precisa de palavras, porque se reconhece no olhar, no silêncio, na forma como se fica ao lado de alguém mesmo quando não há nada a dizer.

Se um dia a lembrança me faltar, espero que o amor que dei permaneça. Porque o amor não se apaga. Não se perde. Não se desfaz. O amor é como água de nascente: mesmo quando não sabemos o nome da fonte, a água continua a correr.

E quando já não puder contar a minha própria história, que ela continue sendo contada por quem fui abrigo, por quem fui passagem, por quem me amou, mesmo quando eu já não soubesse mais o que era amor.

Que a minha vida sobreviva nos gestos que deixei, nas palavras que ofereci, nas mãos que segurei, nas portas que abri, nos silêncios que respeitei, nas presenças que mantive mesmo quando o mundo parecia desabar.

É por isso que vale a pena viver com inteireza. Porque, mesmo quando tudo se desfaz, mesmo quando o corpo falha, mesmo quando a memória se fecha, a parte de nós que se fez amor permanece.

Permanece como luz acesa numa casa antiga, como canto de ave ao amanhecer, como cheiro de terra molhada, como abraço que não se esquece.

E essa parte… essa parte ninguém esquece.

José Coelho