Na minha Beirã, as mulheres como a minha avó e a minha mãe, não eram apenas mulheres. Eram água e fogo, duas forças antigas que se encontravam nelas como se o mundo tivesse decidido que só elas sabiam equilibrar o que arde e o que corre.
De manhã, eram água. Iam ao tanque com a roupa no alguidar à cintura, falavam baixinho, riam alto, lavavam como quem reza. A água batia no sabão, escorria pelos panos, levava a sujidade e trazia de volta a dignidade das coisas limpas. E elas, de mãos na água fria, sabiam segredos que não se contam: quem estava doente, quem ia casar, quem precisava de ajuda. O tanque era mais do que tanque – era confissão, era encontro, era mundo.
À tarde, eram fogo. Acendiam o lume com o jeito de quem acende memória. Sabiam o ponto da lenha, o tempo da chama, o calor certo para a panela. O fogo obedecia-lhes como se reconhecesse nelas uma autoridade antiga. E dali saía o pão, a sopa, o guisado, o cheiro que enchia a casa e fazia da cozinha o coração da aldeia.
As mulheres da água e do fogo tinham mãos pequenas, mas faziam tudo. Amassavam o pão, coziam a roupa, remendavam calças, curavam febres, embalavam crianças, guardavam silêncios. E tinham uma força que não se via, só se sentia. Uma força que não precisava de palavras, porque vivia nos gestos.
Falavam pouco, mas diziam muito. Um “come mais um bocadinho” era amor. Um “não vás por aí” era proteção. Um “Deus te guarde” era bênção. E cada frase vinha carregada de verdade.
Havia nelas uma paciência que hoje quase desapareceu. Sabiam esperar pela água que aquecia, pela massa que levedava, pela roupa que secava, pela vida que acontecia devagar. E nunca reclamavam do tempo, trabalhavam com ele.
Quando uma mulher da água e do fogo morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma forma de estar no mundo. Perdia-se o lume certo, a sopa certa, o conselho certo, o silêncio certo. Perdia-se alguém que sabia que a casa não é só paredes, é também cuidado.
Eu cresci a vê-las. A ouvir o bater da roupa no tanque a vinte metros da minha casa, a sentir o cheiro do pão quente, a aprender que o amor não se diz, faz-se. E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo as mãos delas: pequenas, rápidas, firmes, incansáveis.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a acreditar que essas mulheres seguraram a aldeia inteira. Com água. Com fogo. Com vida.
