A casa começou a encher-se no instante em que a Francisca e a Mariana decidiram vir dormir à Toca dos Coelhos, como tantas vezes faziam quando eram pouco mais que bebés. Há surpresas que têm o dom de abrir janelas por dentro – e esta abriu-as todas.
E assim, sem aviso prévio, a noite ganhou outra música.
A Maria Manuela que conhece o ritmo da casa como quem conhece o próprio coração, começou logo a procurar um tacho, a medir o tempo do seu pudim de pão aprendido em Nisa, a escolher a forma certa.
E eu, anfitrião que nunca se atrapalha nem que chegue um pelotão de gente, fui logo também imaginando um puré de agrião para a sopa e o meu arroz rústico de pato com presunto, chouriço, e mais uns temperos secretos que não conto a ninguém e elas tanto gostam.
Tudo ficou previsto, tranquilo e certo, para o almoço do dia seguinte.
E a casa, que tantas vezes vive no silêncio das rotinas, ganhou outra respiração. Até as paredes parecem ouvir quando as netas cá estão.
Assim que elas entram, muda logo a temperatura – não por causa do calor, mas por causa delas. Há sempre um brilho especial que trazem, mesmo sendo já assim crescidas. Uma mistura da infância que ficou e do futuro que se anuncia.
Pousam as mochilas, dizem “Olá, avô”, dão-me aqueles abracinhos só nossos. E nesse instante tudo se reorganiza: o ar, a luz, o meu coração.
A vida gosta de brincar com o destino. Antes de chegar à Toca dos Coelhos com a Francisca, o Pedro passou pela casa do irmão para o saudar, e, claro, a Mariana quis logo vir também, como quem sabe que a felicidade não se planeia – acontece.
Pouco depois, já tudo instalado, estávamos nós no meio delas e não elas no meio de nós.
A fotografia que ilustra esta prosa feita já depois da meia-noite, é o poema desta inesperada surpresa: três sorrisos abertos, três brilhos diferentes, três almas a iluminarem a casa. Atrás de nós os quadros e diplomas guardavam silêncio, como se a história da família também estivesse ali a assistir à juventude que regressa sempre que quer.
A casa cheia não é só barulho, movimento, pratos e talheres. É a confirmação de que o que construímos – eu e a Maria Manuela – tem raízes, tem continuidade, tem futuro. É a prova de que a nossa casa ainda é porto, ainda é ponto de encontro, ainda é lugar de regresso.
Logo mais, quando a tarde cair e a casa voltar ao seu silêncio habitual, vai ficar no ar aquela espécie de bênção doméstica: a certeza de que aqui vivemos, de novo, o que mais nos importa na nossa vida.
Texto e foto
