Na minha infância, as crianças não eram apenas crianças. Eram rumor, eram luz, eram pressa, eram vida a acontecer sem pedir licença.
Corriam pelas ruas como quem corre dentro de casa. Sabiam onde cada pedra estava, onde cada sombra começava, onde cada cão dormia ao sol. Tinham joelhos esfolados, mãos sujas de terra, cabelos desalinhados pelo vento e uma liberdade que hoje já não se fabrica.
O mundo era pequeno, mas era completo. A rua era campo de futebol, era pista de corridas, era sala de brincadeiras, era lugar de descobertas. E cada esquina guardava um segredo que só elas sabiam.
As crianças da minha infância tinham uma coisa que hoje quase desapareceu: sabiam brincar sem nada. Um pau era espada, uma corda era serpente, uma lata era tambor, uma pedra era tesouro.
E tudo era suficiente.
Sabiam também respeitar o tempo dos adultos. Quando passavam por elas, paravam. Quando a mãe chamava, obedeciam.Quando a avó ralhava, baixavam os olhos.
Não por medo mas por respeito.
Havia uma alegria que não se explicava. O cheiro da terra molhada depois da chuva. O sino da igreja a marcar o fim da tarde. O pão com marmelada embrulhado em papel. O verão que parecia não acabar nunca.
E havia também uma inocência que não se repetirá: a primeira vez que se viu o mar, a primeira vez que se entrou na cidade, a primeira vez que se percebeu que o mundo era maior do que a aldeia – mas nunca melhor.
As crianças da minha infância cresceram depressa, mas cresceram bem. Aprenderam a dureza do trabalho, a importância da palavra dada, o valor da família, o peso da verdade. E levaram tudo isso consigo para onde quer que foram.
Eu fui uma dessas crianças. E quando hoje olho para trás, vejo-me a correr de pés descalços pelas ruas estreitas, a subir muros, a inventar mundos, a aprender a vida sem saber que a estava a aprender.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a ser aquela criança da Beirã que acreditava que a aldeia era o centro do mundo e que, de certa forma, ainda acredita.
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