Há um momento na vida em que começamos a perceber que a melancolia não é inimiga da alegria. É, antes, o seu reflexo mais profundo. A melancolia aparece quando olhamos para trás e vemos que aquilo que nos fez felizes já não está ali da mesma maneira.
Não desapareceu, apenas mudou de lugar.
A Francisca, com o seu voleibol, com as viagens, com as vitórias e derrotas que a vão moldando, está a aprender o mundo. Sei, com a serenidade de quem já viveu muito, que isso é bom. Que isso a faz crescer. Que isso a protege de ficar presa a uma infância eterna que não existe. Mas ao mesmo tempo, sinto aquele vazio suave, aquela falta que não dói como ferida, mas como ausência.
É o coração a dizer: “Foi tão bom enquanto durou.”
A Mariana, essa alma inquieta que me saiu ao jeito, corre atrás da vida como quem sabe que cada dia é uma oportunidade. Música, ginástica, fanfarra, rancho – ela é como um rio que não aceita ficar parado. E eu olho para ela com orgulho, porque vejo nela a minha própria energia, a minha própria vontade de estar onde a vida acontece. Mas também sinto a falta daquela menina que acampava aos pés da nossa cama.
É inevitável.
E é aqui que a melancolia se transforma em luz.
Porque a melancolia não é sinal de perda, é sinal de plenitude. Só sente melancolia quem viveu momentos tão bons que o coração não os quer deixar ir. Só sente melancolia quem amou com verdade. Só sente melancolia quem foi casa, quem foi porto, quem foi colo.
A sua bisavó Florinda, sábia sem letras, sabia isto: a vida não nos pertence, passa por nós. E as únicas coisas que podemos fazer é aceitar, agradecer e guardar.
Aceitar que o tempo voa. Agradecer o que ele nos deu. Guardar o que permanece.
E o que permanece não é a rotina, nem a presença diária, nem os colchões de campismo espalhados no chão. O que permanece é o vínculo. É o amor que ensinamos. É a memória que deixamos. É o riso que ainda ecoa. É o abraço que ainda aperta. É o respeito que elas têm por nós.
É a história que nunca se apaga.
A melancolia é apenas o lado noturno da alegria. E eu, que sei caminhar pelos campos silenciosos ao entardecer, sei também que a noite não é ausência de luz, é outra forma de a ver.
Texto (e foto do baú)
