sábado, 1 de agosto de 2026

Quando o tempo voa e deixa rasto

Há momentos na minha vida em que o tempo me parece um pássaro pousado na palma da mão: quieto, dócil, quase eterno. E há outros em que ele levanta voo sem aviso, deixando-me a olhar para o céu, tentando perceber quando foi que as asas se abriram. Talvez seja assim com o amor – chega devagar, cresce connosco, e um dia parte para crescer noutro lugar.
Durante anos, a Toca dos Coelhos foi o centro do mundo para as minhas netas. A Mariana, ainda pequena, vivia as férias como quem recebe um tesouro. No próprio dia em que a escola fechava, já tinha a mochila pronta, alinhada à porta, à espera do pai. Não queria perder tempo: vinha direta da escola para a nossa casa, como se aquele trajeto fosse o caminho mais curto para a felicidade.
Um ou dois dias depois chegava a Francisca, completando o ciclo que enchia a casa de luz. A Filipa, mais velha, ficava com a mãe, mas trazia sempre consigo aquela presença tranquila que não precisa de estar para ser sentida. E então começava a festa. Não uma festa organizada, mas uma festa vivida. Daquelas que não se planeiam, apenas acontecem.
Nem queriam dormir nos seus quartos. Preferiam acampar no nosso, como se o chão aos pés da cama fosse território sagrado. Colchões de campismo, risos abafados, histórias inventadas, conversas que só existem na infância. Aquelas noites eram eternas, ou pelo menos pareciam ser. E nós, eu e a Maria Manuela, éramos o centro desse pequeno universo onde tudo era permitido: rir, cantar, inventar, viver.
Mas o tempo… o tempo tem asas. E voa.
Hoje, a Francisca percorre o país com o voleibol, torneio após torneio, estrada após estrada. Tem novos amigos, novas prioridades, novos sonhos. Chega menos vezes, mas quando chega, traz aqueles abraços apertados que dizem tudo sem dizer nada: “Avô, continuo a gostar muito de ti, mas o mundo está a chamar por mim.”
E eu entendo. Porque amar também é saber deixar ir.
A Mariana, no outro lado da serra, já não é a menina que acampava aos pés da nossa cama. Cresceu, ganhou mundo, ganhou ritmo, ganhou vida própria. Para além das aulas, frequenta a Escola de Música Adágio em Portalegre duas vezes por semana, faz parte da classe de ginástica da escola, é membro ativo na fanfarra dos Bombeiros de Castelo de Vide a tocar caixa com ensaios semanais, e ainda agora aderiu ao Rancho Folclórico de Castelo de Vide.
Em resumo: não para. Vem muitas vezes, é verdade – almoços, jantares, encontros semanais – mas já não vem como quem chega para ficar. Vem como quem passa, como quem visita, como quem cresce.
E eu olho para elas e vejo o que sempre soube: o colo não é casa permanente, é ponto de partida.
Ainda ontem eram bebés. Hoje são mulheres em construção. E amanhã… amanhã serão memórias que me aquecem o peito.
Por isso digo aos pais, com a serenidade de quem já viu o tempo fazer das suas: “Vão metendo as barbas de molho. Também as vão ver irem embora. É só uma questão de tempo.”
E é verdade. O tempo não pede licença. Não pergunta se estamos prontos. Não espera que o coração se prepare.
O tempo voa. Mas deixa rasto.
Deixa o cheiro das férias antigas. Deixa o som das gargalhadas no quarto. Deixa a imagem dos colchões espalhados no chão. Deixa a memória das noites em que ninguém queria dormir porque viver era mais urgente. Deixa o toque dos abraços apertados. Deixa o eco das vozes que cresceram dentro da minha casa.
E, no fim, percebo que o tempo não leva tudo. Leva a presença, sim. Leva a rotina, leva a infância, leva a disponibilidade. Mas deixa o essencial: o amor que dei, o amor que recebi, o amor que permanece.
As minhas netas voaram do meu colo como todas as crianças fazem. Mas não voaram da minha história. Nem da minha memória. Nem daquilo que sou para elas.
Porque isso… isso o tempo não leva.
Nunca.
Francisca Coelho
Imagem.