Há momentos na história em que parece que o mundo se parte em mil pedaços. Guerras que ninguém compreende, decisões tomadas em gabinetes distantes, líderes que confundem poder com grandeza e que arrastam povos inteiros para sofrimentos que não escolheram. E, no entanto, apesar desse ruído ensurdecedor, há uma verdade silenciosa que resiste: é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.
O que nos une não aparece nos noticiários. Não faz manchetes. Não dá votos. Mas está em todo o lado.
Está no gesto simples de quem segura a porta para o vizinho. Está na mão que se estende para levantar alguém que caiu. Está no olhar preocupado de quem pergunta “estás bem?”. Está na mesa onde se partilha pão, sopa, histórias, memórias. Está na capacidade humana – tão antiga como o próprio fogo – de reconhecer no outro um pedaço de si.
A maioria das pessoas não quer guerras. Quer paz, trabalho, família, futuro. Quer viver sem medo. Quer que os filhos cresçam sem aprender a palavra “refúgio” antes de aprender a palavra “brincar”. Quer que o mundo seja um lugar onde se possa respirar sem sentir que a humanidade está a perder-se.
E por isso, apesar dos conflitos alimentados por vaidades políticas, por ambições pessoais ou por deslumbramentos de poder, acredito – e muitos acreditam – que a humanidade continua maior do que os seus erros. Porque quando tudo falha, quando os discursos se tornam vazios, quando os mapas se enchem de fronteiras riscadas a sangue, ainda assim há mãos que se procuram. Há pessoas que acolhem. Há quem cure, quem proteja, quem salve, quem reconstrua.
O que nos une é invisível, mas é imenso. É a nossa capacidade de sentir o sofrimento do outro como se fosse nosso. É a nossa recusa em aceitar que o mundo tem de ser um campo de batalha. É a nossa teimosia em acreditar que a paz não é uma utopia, é um trabalho diário, feito de pequenos gestos que não aparecem nos jornais, mas que sustentam o mundo.
E talvez seja isso que nos salva: a certeza de que, mesmo quando alguns escolhem a guerra, a maioria escolhe a vida. E que essa maioria silenciosa mas infinita é a verdadeira força que mantém a humanidade de pé.
José Coelho
