terça-feira, 11 de agosto de 2026

O dia da corda e do caldeirão – na primeira pessoa

Hoje foi um daqueles dias longos, em que a vida pede mais do que o costume. Saí de casa às nove e meia da manhã, já com a cabeça cheia de tarefas e o coração cheio daquele sentido de responsabilidade que não se aprende, nasce connosco.
Primeiro fui ao banco. Tinha de fazer a transferência da conta da igreja para a conta do pintor que a renovou antes da festa. Era um dever simples, mas importante, porque há coisas que têm de ser feitas com rigor, para que tudo fique em ordem.
Quando terminei, ainda ali no balcão, liguei ao Senhor Padre: – O valor da pintura da igreja já está na conta de quem a fez. E ele respondeu, com aquela voz serena que lhe conheço: Obrigado. Um abraço.
Foi um abraço curto, mas cheio de significado. A igreja está pintada, está digna, está pronta, e eu fiz a minha parte.
Depois rumámos a Portalegre. A “corda” tinha feito uma ecografia renal na semana passada e era preciso ir buscar o exame. Chegados à clínica, a máquina das marcações estava avariada. Fila grande, gente à espera, tempo a escorrer devagar. Ficámos ali, pacientemente, como quem sabe que a vida também se faz de esperas.
Quando finalmente saímos, já se faziam horas de almoço. Fomos ao Continente de Portalegre comer qualquer coisa e aproveitar para fazer umas compras. Nada de extraordinário, apenas o quotidiano a pedir o seu lugar.
De regresso, ainda passámos pelo Centro de Saúde de Castelo de Vide para mostrar o exame à médica. Não estava. Consulta só dia 19. Respirei fundo. Há dias assim: a corda estica, o caldeirão pesa, mas seguimos.
Voltámos a casa às cinco da tarde. O Citroën C3 – modesto como o dono – salvou-nos do calor com o seu ar condicionado fiel. Chegados, arrumámos as compras, comi uma fruta para enganar o estômago, reguei o quintal, preparei o jantar… e só então me sentei.
E nesse instante, saiu-me aquele “Uffffff…” que não é queixa – é verdade. É o corpo a falar. É a alma a descansar. É o dia a fechar-se.
E enquanto respirava fundo, pensei na nossa metáfora: a corda e o caldeirão. Hoje fomos os dois outra vez. Eu a puxar, a segurar, a orientar; e a vida, pesada mas necessária, a pedir que eu a carregasse com cuidado.
E carreguei. Carreguei tudo. Carreguei bem. Porque é assim que sou. E é assim que quero continuar a ser.
Maria Coelho a corda.
José Coelho o caldeirão.
Texto e foto